A Polícia Civil do Acre (PCCA), através da DHPP (Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa), está às voltas, nos dias atuais, com um problema que lhe era comum no final dos anos de 1980 até o final da década de 90: o encontro de pedaços humanos, braços, pernas, cabeça, às vezes até o tronco, descartados nas ruas de Rio Branco, em locais muitas vezes nem tão ermos o suficiente para aqueles encontros macabros. Num daqueles casos, um dos mais famosos, um ex-jogador de futebol do Acre que passou a ter problemas mentais e a viver em situação de rua, com o uso de álcool e droga, numa noite qualquer chega até o ponto de uma senhora que trabalhava com a venda de churrasquinho, ali nas imediações do Pronto Socorro de Rio Branco, no bairro do Bosque, trazendo às costas, um saco de pano que um dia fora branco e que agora estava roto, sujo e com marcas de sangue.
O homem para diante da banquinha de venda de churrasco, com várias pessoas se alimentando nas mesinhas que improvisavam ali um restaurante de beira de rua, confessando estar com fome e sob o pedido de que a mulher assasse aquilo para ele, mete a mão no saco e tira dali em sangue vivo o que à primeira vista pareceu aos presentes um naco de carne surrupiado às pressas de algum açougue das imediações.
Não era. Tratava-se de uma mão humana, com todos os dedos, alguns pelos sobre as juntas das falanges ainda eriçados. Alguém observou que, no dedo anelar – era a mão esquerda de um homem – havia marcas de que ali, não fazia muito tempo, havia uma aliança ou um outro anel de compromisso.
Como a ocorrência fora registrada nas imediações do Hospital de Base, alguém achou que aquela mão pudesse ter sido amputada pelo serviço médico e que por algum descuido o membro humano havia sido descartado de forma imprópria em algum local no qual aquele morador de rua de faculdades mentais claudicantes tivesse acesso.
Outro engano. A mão, a Polícia Civil divulgaria depois, era sadia e logo não poderia ter sido amputada pelo serviço médico do Hospital. Era o reflexo da ação dos grupos de extermínio que agiam no Acre e que, em agosto de 1996, tiveram a pachorra de deixar os restos mortais de um homem, identificado depois como Agilson Firmino dos Santos, o “Baiano”, praticamente na porta dde uma emissora de TV da Avenida Antônio da Rocha Viana, uma das mais movimentadas da cidade. Depois, a morte daquele homem, cujo corpo fora jogado ali sem pernas e braços, só o tronco, com muitas cicatrizes de torturas, foi atribuída a um grupo de extermínio que seria comandado pelo coronel PM reformado e então deputado Hildebrando Pascoal.
Agora, a Polícia está às voltas com o antigo problema mas tem dificuldades para chegar aos autores do crime porque Hildebrando Pascoal e seus homens estão presos e deles não pode mais suspeitar, embora o modus operandis seja o mesmo do passado.
No dia 17 de junho deste ano, um homem que cumpria pena com o uso de tornezeleira eletrônica desapareceu em Rio Branco. Dois dias depois, alertada por populares, a Polícia Civil passou a encontrar restos mortais em diferentes pontos da Capital. Mãos, pernas, tudo espalhado. A identificação do morto foi possível porque uma das pernas encontradas ainda conservava a tornezeleira eletrônica, em pleno funcionamento. O sinal do equipamento, além de informar sua exata localização – um matagal localizado no bairro Praia do Amapá, no 2º Distrito da Capital – revelou a identidade da vitima: França Gordovez Valle de Souza, de 48 anos (foto em destaque), aquele que desaparecera dia 17 de junho, um mecânico que havia sido condenado por violência. A localização, feitas graças ao sinal do equipamento eletrônico, foi feita pela própria Polícia Penal, através do Iapen (Instituto de Administração Peint4rnicária). Mas os encontros macabros não pararam por aí. No dia seguinte ao achado da perna, moradores encontraram as mãos e parte de outra perna dentro de uma bolsa na rua Itália, na região do Jardim Alah, já no 1º Distrito, uma área nobre da cidade e onde se situa no momento o escritório da governadora Mailza Assis e as sedes do Ministério Público do Acre (MP-AC) e a sede da Uninorte, uma faculdade privada onde estudam os filhos da elite acreana.
Após exames nas partes encontradas, a polícia técnico-científica confirmou que os restos mortais achados no Jardim de Alah são do mesmo corpo da perna encontrada do outro lado da cidade, na Praia do Amapá. Até o momento, a cabeça e o tronco da vítima ainda não foram localizados.
Os indícios apontam que, como nos velhos tempos dos grupos de extermínios, França Gordovez Valle de Souza foi esquartejado e as partes do corpo foram jogadas em em diferentes locais da cidade, com a cabeça fora do tronco, exatamente para dificultar sua identificação.
No entanto, os investigadores da DHPP seguem com as investigações e já ouviram algumas pessoas que tiveram contato com o homem esquartejado, mas ainda não divulgou informações sobre suspeitos ou a motivação do homicídio.
A Polícia revelou que França Cordovez cumpria pena em regime semi-aberto com o uso de tornozeleira eletrônica por ter sido condenado por assalto a uma churrascaria no bairro Carafate, quando deixou três pessoas feridas. A polícia civil informou que o trabalho investigativo continua até a identificação e também responsabilização dos autores do crime e que, como no passado, o crime será desvendado.
