Milton Hatoum: uma voz da Amazônia chega à Academia Brasileira de Letras

**Escritor nascido em Manaus, de origem libanesa, diz que é preciso denunciar, sempre, o massacre em Gaza e não perder os olhos sobre a Amazônia; “É impossível pensar na cultura indígena sem a floresta, sem a natureza…”, disse após ser eleito.**

**Tião Maia. O Aquiri **

Amazônia empedernido apesar de suas origens libanesas, inclusive com um pé no Acre, onde tem amigos e familiares (a família Farhat, do saudoso Abrahim Farhat Neto, o Lhé, falecido em maio de 2020), o escritor Milton Hatoum, nascido em Manaus (AM), é o primeiro intelectual manauara a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele foi escolhido por 33 de 34 votos possíveis, ele vai suceder ao jornalista e escritor Cícero Sandroni, que morreu em junho deste ano.
Além de romancista, Hatoum é contista, ensaísta, tradutor e professor universitário. Em 1989, seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, publicado pela Companhia das Letras, ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance.

Os livros de Hatoum já ultrapassam 500 mil exemplares vendidos. Foram publicados em 17 países. O escritor traduziu para o português “A Cruzada das Crianças” (Marcel Schwob), Representações do Intelectual (Edward Said) e, em parceria com Samuel Titan, Três Contos (Gustave Flaubert).

“Quis colocar o mapa da Amazônia” na nossa literatura’, disse o novo ‘imortal’, primeiro manauara a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). O romancista já venceu três prêmios Jabuti e é autor de obras reconhecidas mundialmente, como Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos. Boa parte de suas obras foi adaptada para o cinema.

“Há uma renovação na Academia e espero que o nosso Congresso Nacional seja renovado também. Então, eu quis colocar, modestamente, o mapa do Amazonas, de Manaus, na nossa literatura. Mas tentando evitar o pitoresco e a literatura regionalista rasa”, afirma.

Atento aos acontecimentos do país e do mundo, Hatoum também enfatiza a importância de denunciar o massacre do povo palestino na Faixa de Gaza. “O que eu quero dizer para aqueles que ainda hesitam em chamar de genocídio o que está acontecendo [em Gaza] é que centenas de grandes intelectuais, os maiores historiadores do Holocausto, inclusive israelenses, como Omer Bartov, afirmam categoricamente que trata-se de um genocídio”, enfatiza.

Em outubro deste ano, o escritor lança Dança de Enganos, terceira obra de uma trilogia que tem entre os temas o autoritarismo e a violência do regime militar no Brasil.

O escritor também defende a Amazônia. Segundo ele, a Amazônia é vista muito a partir da questão da floresta e da questão indígena, que são fundamentais, porque a floresta e as civilizações dos povos originários são coisas entrelaçadas. É impossível pensar na cultura indígena sem a floresta, sem a natureza. O livro maravilhoso A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, conta sobre essa relação íntima e inseparável entre a natureza, a floresta e os indígenas, que formam todo um sistema complexo de cosmogonia, símbolos e vida cotidiana.

Mas há uma Amazônia também urbana. 70% ou mais da população da Amazônia, o que equivale a mais de 30 milhões de brasileiros, moram em centros urbanos, em metrópoles, nas capitais ou em comunidades em cidades pequenas. E essas metrópoles são muito problemáticas. Elas têm todos os problemas — ou mais — das metrópoles do Sudeste”, disse.

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