Encontro inédito conduzido pela Conselheira Estadual de Cultura Queli Cá estabelece um novo marco para o fomento cultural no Estado do Acre, exigindo que a inclusão saia do papel e ganhe os palcos

O tom do encontro não foi de lamentação, mas de reivindicação por protagonismo

O último sábado, 20 de junho de 2026, entrou para o calendário da política cultural acreana como um divisor de águas. Sob a mediação da Conselheira Estadual de Cultura, Queli Cá, o Estado vivenciou sua primeira “Escuta dos Surdos” sobre Editais de Cultura. O evento, realizado em um clima de urgência e esperança, levou a comunidade surda a expor uma verdade inconveniente: os mecanismos de fomento atuais, apesar de importantes, operam, muitas vezes, como uma barreira silenciosa que exclui quem tem muito a dizer.

O tom do encontro não foi de lamentação, mas de reivindicação por protagonismo. A mensagem da comunidade foi uníssona: não se trata apenas de garantir acessibilidade, mas de reconhecer a produção artística surda como um pilar fundamental da identidade cultural do Acre.

Durante toda a tarde, a Conselheira Queli Cá participou do debate que escancarou a falha sistêmica dos editais vigentes: formulários complexos, ausência de tradução em Libras e a total falta de parâmetros de acessibilidade que tornam a participação de artistas surdos, teatrólogos, dançarinos e poetas um exercício de superação quase impossível.

“É lei e é direito Constitucional, reforçado pela Lei Brasileira de Inclusão, que o Estado proporcione todo o acesso e a acessibilidade necessária para a plena participação das pessoas com deficiência. O que estamos discutindo aqui não é favor, é o cumprimento estrito do dever do poder público”, pontuou Queli Cá, visivelmente engajada na causa das pessoas com deficiências.

Dentre as reivindicações, estão:

Edital Específico (R$ 500 mil): Criação de um fomento dedicado exclusivamente a Pessoas com Deficiência (PcDs), com linguagem simplificada, editado nativamente em Libras e garantindo audiodescrição.

A exigência de manter as cotas de PcD nos editais já existentes, aplicando a mesma lógica de reserva de vagas já praticada para os povos originários.

O desejo de que o surdo não seja apenas um espectador, mas o autor da obra — levando teatro, dança, música e poesia para os palcos acreanos com a mesma validade artística dos ouvintes.

“É importante que o surdo tenha as mesmas oportunidades, sem ficar excluído. Precisamos mostrar a nossa cultura, a nossa identidade”, ressaltou Lucas, presidente da ASSACRE.

O encontro encerrou com um sentimento de dever cumprido, mas com a clareza de que o trabalho apenas começou. A Conselheira Queli Cá, que tem pautado sua atuação pela defesa da cultura como um direito de todos, confirmou que as demandas serão levadas ao Grupo de Trabalho (do qual é um dos membros) que atualmente está em fase de escuta da sociedade acreana com o objetivo de criar melhorias efetivas nos editais.

A expectativa da comunidade surda e de todas as pessoas com deficiências se volta para os próximos editais, mantendo a cobrança, que será constante: os próximos editais tragam, em suas páginas e em suas ações, a acessibilidade como regra, e não como exceção.

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