**Tião Maia, com agências internacionais**
Realizado neste domingo (17/9), o primeiro turno das eleições presidenciais na Bolívia terminou com vitória da direita, que levará dois candidatos ao segundo turno, segundo o resultado da contagem rápida do órgão eleitoral, que confirma as pesquisas de boca de urna da Ipsos-Ciesmori e da Captura Consulting. No ano em que a Bolívia comemorou seus 200 anos de independência, no último dia seis d agosto, Rodrigo Paz, senador de centro-direita pelo estado Tarija e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), surpreendeu ao vencer o primeiro turno com 32% dos votos.
Esta será a primeira vez em 20 anos que a esquerda não governará o país, afundado em uma profunda crise econômica e sob o fantasma do ex-presidente Evo Morales (2006-2019), que, impedido de disputar as eleições, promoveu uma campanha em prol do voto nulo.
Em segundo lugar ficou o ex-mandatário Jorge “Tuto” Quiroga, da direita conservadora, que obteve 26%. O milionário Samuel Doria Medina, favorito em todas as pesquisas até uma semana atrás, terminou em terceiro, com 20%. Na sequência ficaram o candidato de esquerda Andrónico Rodríguez (8%), que é ex-discípulo de Morales; Manfred Reyes Villa, da aliança de centro-direita APB-Sumate (6%); e o candidato governista Eduardo del Castillo (3%), ex-ministro do atual presidente Luis Arce, que decidiu não disputar a reeleição devido a baixa popularidade. Os demais candidatos não chegaram a 2%.
A vitória de Paz foi a grande surpresa da eleição. Nenhuma sondagem apontou o favoritismo do senador, que cresceu no exílio devido à perseguição sofrida por seus pais durante as ditaduras militares. Pesquisas anteriores indicavam a liderança de Doria Medina ou um mesmo um empate técnico entre o ex-presidente Quiroga e Doria Medina, com o senador aparecendo com menos de 10% das intenções de voto.
Após o resultado, o milionário aceitou sua derrota e manifestou seu apoio a Paz. “Disse que, se não ganhássemos, apoiaria quem ficasse em primeiro, desde que não fosse o MAS [Movimento ao Socialismo]. Esse candidato é Rodrigo Paz e mantenho minha palavra — declarou o candidato da Aliança Unidade depois de fracassar pela quarta vez na tentativa de chegar à Presidência.
Antes mesmo do fim da votação, Morales, que é alvo de um mandado de prisão, questionou sua legitimidade. “Esta votação vai demonstrar que é uma eleição sem legitimidade”, disse Morales, após votar perto de Lauca Eñe, um pequeno povoado no centro da Bolívia, onde seus apoiadores o protegem dia e noite para evitar sua prisão. — Primeira vez na história, se não houver fraude, [que] o [voto] nulo será o primeiro.
Vestindo camisa branca e sandálias, o ex-chefe de Estado, de 65 anos, foi escoltado por dezenas de camponeses que formaram um círculo humano para garantir sua segurança. “Desta vez vamos votar, mas não vamos eleger”, disse ele, em referência ao fato de estar judicialmente proibido de concorrer a um quarto mandato por decisão do Tribunal Constitucional.
As urnas foram fechadas às 16h do horário local (17h em Brasília). Segundo o presidente interino do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), Óscar Hassenteufel, a jornada eleitoral transcorreu em tranquilidade, destacando que apenas incidentes isolados foram registrados e que nenhum deles alterou o andamento normal do processo.
O episódio mais grave ocorreu com o candidato de esquerda Andrónico Rodríguez, da Aliança Livre. Logo após votar na província de Carrasco, na região cocalera do Chapare, um reduto de Morales, Rodríguez foi alvo de pedras e insultos e precisou deixar rapidamente o local. Os agressores seriam supostamente seguidores do ex-presidente, que rompeu com seu antigo afilhado político e agora o acusa de traição. Segundo Morales, Rodríguez se tornou um “peão do império e da direita”.
A violência reflete o grau de polarização em torno da figura de Evo Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia e líder histórico do MAS, partido que deixou após romper com seu sucessor e atual presidente, Luis Arce. Sem candidato próprio e sem espaço político, Morales acusou o governo de ter se apropriado da legenda. “Se não fosse por seu aliado Luis Arce, que roubou nossa sigla e proscreveu o maior movimento político do país, essas eleições nós ganharíamos de longe”, escreveu nas redes sociais.
Mais de 7,9 milhões de bolivianos foram convocados a votar para escolher o novo presidente e renovar os 166 membros da Assembleia Legislativa. O país atravessa uma crise econômica severa, com inflação anual próxima de 25%, falta de combustíveis e escassez de dólares. O cenário aprofundou a rejeição ao MAS, no poder desde a eleição de Morales em 2005.
“A esquerda nos fez muito mal. Quero mudança para o país”, disse a aposentada Miriam Escobar, de 60 anos, à AFP, após ser a primeira a votar em uma escola no sul de La Paz.
Segundo a cientista política Daniela Osorio Michel, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais, a demanda social vai além do debate ideológico. “O que as pessoas buscam agora, mais do que uma mudança da esquerda para a direita, é um retorno à estabilidade — afirmou à AFP.
“A Bolívia precisa de estabilidade, governabilidade e de gerar uma mudança na economia que não seja uma economia para o Estado, mas uma economia para o povo — afirmou Paz após votar na cidade de Tarija, no sul do país.
Quiroga também prometeu uma nova etapa que, segundo ele, será pacífica e democrática. “Bolívia vai ser exemplo para o mundo, pela forma como vamos mudar pacífica e democraticamente depois de 20 anos de abusos”, declarou o candidato da coalizão Livre ao votar.
Quiroga foi presidente entre 2001 e 2002, quando, como vice, assumiu o poder no lugar de Hugo Banzer, ex-ditador dos anos 1970 que mais tarde foi eleito democraticamente, mas renunciou após adoecer de câncer. Ambos defendem que Evo Morales preste contas à Justiça.
O presidente Luis Arce prometeu entregar o poder em 8 de novembro ao vencedor e fazer uma transição democrática pacífica. “ Vamos fazer história como o governo que cumpriu o mandato de 2020: recuperar a democracia. Não apenas a recuperamos, como a preservamos e a entregaremos em um processo democrático” , declarou, ao votar em La Paz.

