Gado inflado: investigação sobre corrupção no Idaf aponta para irregularidades que beneficiam Ricco Leite, o fazendeiro vice de Alan Rick; candidato a vice precisava aumentar ter mais gado do que realmente possuia

Movimentação  irregular do cadastro de  prestador de serviços da família Leite; irmão do candidato confessou corrupção ativa em acordo com o Ministério Público; Irregularidade  foi feita para obter empréstimo junto ao Banco da Amazonia

 

 

Um relatório da Delegacia de Combate à Corrupção registra a inserção irrgular de 100 bovinos no cadastro de Fábio Ricardo Leite, o Rico Leite, candidato a vice-governador na chapa de Alan Rick. A movimentação aparece nos autos de uma investigação sobre pagamentos de propina a um funcionário do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf) para realizar alterações falsas nos registros de rebanhos. Rico não consta entre os indiciados no relatório final.

O registro está na página 167 do processo nº 0003826-61.2022.8.01.0001. Ao detalhar operações de janeiro de 2020, os investigadores afirmam que, utilizando o cadastro de Marcos Venicios Perdigão Brandão de Sousa, vinculado à Fazenda Carrapicho, foram inseridos “100 bovinos no cadastro de FABIO RICARDO LEITE”. A tabela reproduzida no documento identifica a movimentação em 14 de janeiro daquele ano, com destino à Fazenda Castanhal, em Bujari.

Desde aquela época, Perdigão mantém relação com a administração das propriedades da família Leite. Segundo a ex-secretária Jacilene do Nascimento Araújo, ele “não era funcionário formal da família, mas sim um prestador de serviço da família”. Ela também afirmou que Perdigão era próximo de José Marcos e Leandro, irmãos de Rico, e de Gabriel, filho de José Marcos, estando autorizado a movimentar os cadastros dos integrantes da família.

Jacilene trabalhava no escritório que administrava aproximadamente oito fazendas e cuidava de contas, notas fiscais, folha de pagamento e emissão de Guias de Trânsito Animal (GTAs). Seus chefes imediatos, conforme declarou à polícia, eram José Marcos Leite Júnior e Leandro Luiz Leite. Na investigação, ela aparece como intermediária entre Perdigão e Raimar de Assis Modesto, funcionário do Idaf.

“Foi possível identificar que o MARCOS VENICIOS PERDIGÃO BRANDÃO DE SOUZA […] por intermédio da nacional JACILENE DO NASCIMENTO ARAÚJO entrou em contato diversas vezes com o RAIMAR para que fizesse inserções falsas no sistema do IDAF”, afirma o relatório de investigação.

A equipe policial identificou 40 transferências de Jacilene para Raimar, somando R$ 19.890, além de nove transferências diretamente de Perdigão ao servidor, no total de R$ 4.016. Segundo o documento, os investigadores confrontaram os períodos dos pagamentos com as movimentações de bovinos no sistema para verificar alterações nos cadastros.

Perdigão, que confessou corrupção ativa e firmou acordo com o Ministério Público no caso do Idaf, também atua como cabo eleitoral de Alan Rick. Nos bastidores, circula a informação de que ele é cotado para comandar a Secretaria de Agricultura caso Alan Rick seja eleito.

Alterações poderiam fazer o cadastro apresentar mais gado que o existente – Em depoimento, Jacilene descreveu uma operação destinada a elevar artificialmente o saldo de uma propriedade. Segundo ela, após um empréstimo junto ao Banco da Amazônia, “precisavam que tivesse mais gado do que realmente tinha no pasto”. A ex-secretária relatou a inserção de aproximadamente 3 mil animais, mediante pagamento de R$ 4,5 mil a Raimar, e atribuiu as orientações aos seus chefes José Marcos e Leandro.

O depoimento documenta uma finalidade atribuída a outra alteração investigada, mas não demonstra quais bovinos tenham sido utilizados para obter crédito ou apresentar garantias bancárias. Os documentos examinados também não esclarecem se esse lançamento correspondeu a uma transferência efetiva de animais ou a um acréscimo fictício no saldo do candidato.

 

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