Alguém já escreveu na imprensa internacional que o Acre, que já nasceu internaciolizado e motivo de brigas que podiam ter arrastado para a confusão até mesmo o Governo dos Estados Unidos com a história do Bolivian Syndicate, é um Estado brasileiro pobre e isolado que, que a despeito do isolamento e pobreza de seus habitantes, tem enorme propensão de se envolver no olho do furacão dos escândalos nacionais. Foi assim, início do século passado, quando o Brasil ainda discutia suas fronteiras e sua geopolítica, no caso da disputa do Acre com a Bolívia e os interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra na borracha que saia daqui para a indústria europeia e norte-americana, foi assim no degredo e morte do conquistador Luiz Galvez de Arias, na morte do escritor Euclides da Cunha, assassinado após sua vivencia no Acre, no assassinato de seu filho quando respondia como delegado de polícia em Feijó, foi assim em 1962 quando o então presidente João Goulart e o então primeiro-ministro Tancredo Neves sancionaram juntos a lei que elevou o Território do Acre à condição de Estado, foi assim, mais recentemente no assassinato do sindicalista Wilson Pinheiro no caso da prisão do então sindicalista Luiz Inácio Lula por causa de uma frase que ele disse em Brasilçeia em plena ditadura milita (“esta na hora da onça beber água”), na morte do sindicalista Chico Mendes, do governador Edmundo Pinto, num quarto de hotel em São Paulo, no caso dos Anões do Orçamento, no qual um dos envolvidos (José Carlos Alves dos Santos) namorava uma bela acreana, foi assim no caso da emenda reeleição quando deputados federais do Acre foram gravados dizendo terem vendido seus votos por R$ 200 mil para aliados do então presidente Fernando Henrique Cardoso, foi assim quando o então candidato a presidente de Jair Bolsonaro disse em Rio Branco, em 2018, que iria metralhar petistas no país…
E agora, quando ninguém esperava, principalmente porque havia informações de que as mulheres que participavam das orgias eram lusive estrangeiras, vindas da Europa, eis que surge o nome de uma acreana nas festas do então banqueiro Daniel Vorcaro?
Trata-se de Ana Raquel dos Santos Ribeiro, uma influenciadora e DJ natural do Acre que gerenciava o perfil de música eletrônica @anatrackid no Instagram. Ela se tornou peça central de um escândalo político-financeiro nacional após a quebra de sigilo das investigações da Polícia Federal sobre o Caso Banco Master. Quando a conta @anatrackid desapareceu do Instagram, em 10 de novembro de 2023, a contadora Ana Raquel dos Santos Ribeiro havia acabado de transformar em profissão um projeto iniciado três anos antes.
Como influenciadora e criadora de conteúdo sobre música eletrônica, ela reunia notícias, datas de eventos, escalações de DJs e venda de ingressos. O perfil já tinha cerca de 13 mil seguidores e alcançava mais de 425 mil contas.
Em setembro daquele ano, antes da suspensão da conta, Ana havia deixado o emprego de contadora para se dedicar ao perfil. Sua renda vinha de comissões sobre a venda de ingressos, divulgação de festas e criação de conteúdo.
A suspensão, portanto, não significava apenas perder fotografias e vídeos: significava ficar sem o principal canal de trabalho.
No dia 1º de novembro de 2023, antes da suspensão, ela havia publicado um vídeo de uma festa na boate Madame Club, conhecida como Madame Satã em São Paulo. “Quando eu for rica, haverá sinais”, dizia a legenda.
Ana não fazia ideia de que a postagem irritaria um dos homens que se tornaria, anos depois, o pivô de um dos maiores escândalos financeiros e políticos da história recente do Brasil: o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo reportagem da revista Piauí, a festa tinha sido articulada por Vorcaro e tinha restrição explícita para que ninguém levasse celulares. O objetivo era manter o evento longe dos holofotes — a festa contou, segundo a revista, com 20 homens e 120 mulheres. Entre os homens constam que haveria ministros do Supremo Tribunal Federal e membros da mesa diretora do Congresso Nacional, inclusive senadores.
Sem que Ana soubesse, o anfitrião secreto daquela noite era o banqueiro Daniel Vorcaro (ex-controlador do Banco Master). A festa de Halloween contava com uma rígida proibição de celulares e reuniu cerca de 120 mulheres jovens e 20 homens. Irritado com o vazamento da festa secreta, Vorcaro enviou o link do post de Ana para um interlocutor com a ordem explícita: “derrubar esse”. Poucos dias depois, a conta de Ana Raqu (que contava com 13 mil seguidores e era o seu ganha-pão principal) foi suspensa pela Meta. Ela só conseguiu recuperar o perfil meses depois, via ação judicial. A acreana passou anos sem entender o verdadeiro motivo pelo qual sua conta havia sido derrubada, acreditando ter sido um erro aleatório do algoritmo do Instagram. A verdade só veio à tona com o avanço das investigações da Polícia Federal. Nos relatórios policiais que vieram a público, as mensagens de Vorcaro ordenando a derrubada da postagem da influenciadora foram anexadas aos autos, revelando como o ex-banqueiro utilizava mecanismos de intimidação e monitoramento nas redes.
Ana Raquel conseguiu recuperar seu perfil meses depois por meio de uma ação judicial contra a Meta. No entanto, ela só descobriu o verdadeiro motivo por trás do sumiço de sua conta três anos depois, em setembro de 2026, quando o relatório da Polícia Federal e os áudios interceptados de Vorcaro vieram a público na imprensa. Diante das revelações, a influenciadora informou que pretende acionar seus advogados para tomar medidas judiciais contra o ex-banqueiro.
