
Beth Passos (*)
Amar a si mesmo virou busca desenfreada por sucesso, beleza e um status constante de felicidade fictícia a ponto de tornar o indivíduo cada vez mais incapaz de lidar com qualquer tipo de frustração ou mal-estar. Também é necessário expor cada movimento desse processo para as redes sociais.
As novas gerações nem cogitam o verbo contrariar em suas vidas.
Mas inflar o ego e manter o amor próprio são movimentos distintos. O ego acredita que ha uma única versão de si mesmo, que se não for inflada entrará em derrocada. Isso faz do ego tão grandioso e vaidoso, quanto frágil e paranóico.
O ego se acha o centro do mundo, mesmo que seja para ser odiado, perseguido ou invejado.
Amar a si mesmo, ao contrário, pressupõe aceitar que nosso eu não é uma entidade única, indivisível ou central, mesmo no caso do amor próprio.
Amar envolve a existência de pelo menos dois seres diferentes, em condições iguais de poder. Ao contrário do que o ego faz parecer, que nosso eu é feito de muitos, inclusive dissonantes, contraditórios.
Amar a si é ir além de insuflar o ego, compreende ainda acolher nossa insignificância, nossas misérias, estranhezas e falhas, bem como, negociar e aprender com elas.
Quem ama a si mesmo, consegue dialogar com suas limitações e imperfeições ao mesmo tempo sendo feliz.
O ego, por sua vez, é um ditador cruel e intransigente que nos derruba mais dia menos dia.
(*) Beth Passos é jornalista e passa a colaborar com o Portal O Aquiri como articulista, redatora e repórter
