**O caso é motivo de comemoração, mas também um problema mortal.**
**Dilson Ornelas, Rio de Janeiro **
O menino Pulsing Ajnera, de cinco anos, brincava com seus irmãos quando um leão “surgiu do nada”, segundo o relato de seu pai, Heera Ajnera. “O leão agarrou meu filho mais novo e fugiu. Minha família tentou de tudo para salvá-lo. Jogaram pedras e paus, mas o animal o arrastou para a selva”, disse Heera, devastado. O corpo do menino foi encontrado posteriormente, próximo à sua casa no estado indiano de Gujarat.
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** Hoje, a maioria dos leões vive fora do parque, convivendo com humanos em vilas e cidades. **
Pulsing foi uma das sete pessoas mortas por leões na Índia no último ano, até junho de 2025, elevando o total de ataques fatais em cinco anos para mais de 20. Os ataques a gado quase dobraram no mesmo período, segundo autoridades de Gujarat.
Os leões asiáticos foram extintos na Índia, e agora então protegidos por uma proibição de caça que já dura um século. Esforços recentes de conservação aumentaram a população em 30%, chegando a 891 leões nos últimos cinco anos.
Ambientalistas destacam que o sucesso da conservação se deve à relação única entre humanos e leões, onde moradores lucram com o turismo gerado pelos felinos, que, em troca, têm espaço para vagar. No entanto, esse equilíbrio está ameaçado pelo crescimento populacional dos leões.
“Eles aparecem em estacionamentos de hotéis, em telhados de casas, descansando em varandas e rugindo”, afirmou o biólogo Ravi Chellam, da Biodiversity Collaborative, à CNN. Ele alerta que a presença de leões em áreas urbanas aumenta o risco de ataques a humanos.
**Crescimento populacional e conflitos**
O Parque Nacional de Gir, uma área protegida de 545 milhas quadradas, foi criado em 1965 para proteger espécies ameaçadas, incluindo os leões asiáticos. Hoje, a maioria dos leões vive fora do parque, convivendo com humanos em vilas e cidades.
“Teoricamente, é uma história de sucesso, pois o objetivo da conservação era aumentar a população da espécie”, explicou o conservacionista Jehan Bhujwala à CNN. “Mas com muitos animais, eles ocupam áreas fora do parque, gerando conflitos com a população local.”
Bhujwala destaca que o modelo de conservação da Índia nunca buscou separar leões de humanos, com vilarejos dentro de parques nacionais. Essa coexistência é única, segundo ele, com moradores dependendo dos leões para o turismo e os felinos se alimentando de gado velho abandonado e de animais considerados pragas, como porcos e antílopes nilgai, conforme estudo de Yadvendradev Vikramsinh Jhala, ex-reitor do Wildlife Institute of India.
“A convivência entre pessoas e um grande carnívoro como esse não é vista em nenhum outro lugar do mundo”, disse Jhala à CNN. Lakshman, um fazendeiro de 32 anos da comunidade Maldhari, reforça: “Se há Maldharis, há leões. Somos um só.” No entanto, ele nota um aumento nos ataques a gado, o que tem gerado tensões na comunidade.
**Plano de realocação **
Conservacionistas, como Chellam, defendem há mais de uma década a transferência de leões para o Santuário de Vida Selvagem de Kuno, em Madhya Pradesh. Um estudo conduzido por ele há 30 anos identificou o local como adequado. Em 2013, a Suprema Corte da Índia ordenou a realocação, mas o plano segue parado. Chellam, integrante do comitê responsável, diz que a última reunião ocorreu em 2016, acusando o governo de protelar a ordem judicial.
A situação é complicada pela introdução de guepardos em Kuno, trazidos da África do Sul e Namíbia em 2022 para reintroduzir a espécie extinta na Índia há 70 anos. Apesar de algumas mortes iniciais, a população de guepardos cresceu para 31, segundo um estudo recente. Ambientalistas temem que a presença dos guepardos atrase a transferência dos leões por até 20 anos, tempo necessário para estabilizar a população de guepardos.
A resistência à realocação também vem de autoridades locais e do setor de turismo, que temem perder a exclusividade de Gujarat como único lugar na Índia para ver leões selvagens. Como alternativa, o governo propõe transferir leões para o Santuário de Vida Selvagem de Barda, dentro de Gujarat, onde 17 leões foram avistados pela primeira vez desde 1879.

