**Cartunista falecido no último domingo, aos 93 anos, faz humor até no próprio velório: a arte de saber viver é capaz de superar a própria morte, se é que é possível… **
**Dilson Ornelas, do Rio de Janeiro **
O bom-humor de Jaguar surpreende até mesmo quando todos imaginavam no velório estar presentes ao último adeus. Mas o cartunista e fundador do Pasquim, Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o eterno Jaguar, resolveu dar um jeito inusitado no seu próprio funeral, deixando a vida e as cinzas para se espalharem entre o Rio e São Paulo. O corpo de Jaguar, que nos deixou no último domingo aos 93 anos, foi velado e cremado no Memorial do Carmo, no Rio, na segunda-feira (25/8). Mas as despedidas não terminam por aí, já que a sua última vontade, registrada em cartório e até mesmo em um capítulo do seu livro, “Confesso que Bebi – Memórias de Um Amnésico Alcoólico”, era de que suas cinzas fossem espalhadas por seus bares favoritos nas duas cidades.
Infelizmente, as novas gerações de boêmios de plantão não terão a oportunidade de frequentar alguns dos templos etílicos que Jaguar tanto amava e que já se foram, como o clássico Bar Luiz, no centro do Rio, ou o Piratininga, na Vila Madalena, em São Paulo. Mas nem tudo está perdido! Entre as paradas garantidas para a turnê póstuma de Jaguar estão o Bracarense e o Jobi, no Leblon.
No velório, no grande reencontro de velhos companheiros de copo, que se despediram do cartunista, muitos lembraram momentos hilariantes do amigo. Segundo o ator Stepan Nercessian, que não poupou elogios, a resiliência de Jaguar com a bebida era digna de um super-herói.
Jaguar era parte da turma de peso que fez história no cartunismo brasileiro e no Pasquim, um jornal satírico que não tinha medo de nada e que marcou época durante a ditadura militar, enfrentando a censura. O time de craques incluía ninguém menos que Millor Fernandes, Ziraldo e Henfil, uma constelação que, assim como Jaguar, viveu intensamente.
**Trecho do livro “Confesso que bebi”**
“Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio, pelo menos resolvi planejar direito a minha morte. Para começar, decidi ser cremado. Sem choro, nem vela, sem velório nem enterro, coisa medieval, massacrante, um sofrimento insuportável para a família e os amigos, menos, evidentemente, para o defunto, que não está nem aí, para ele tanto faz ser enterrado, explodido ou catapultado para o espaço. Par délicatesse, para poupar os que ficam, escolhi a cremação.
Mas atenção, para ser cremado, não basta querer. É preciso preencher um formulário que se apanha na Santa Casa, detalhando por escrito o destino que deve ser dado às cinzas e depois registrar em cartório, com três testemunhas.
No meu caso, determinei que as cinzas sejam espalhadas pelos bares que bebi. “Vai faltar cinza”, foi o comentário de Chico OPF, encarregado com Albino Pinheiro – que já tirou o corpo da missão – Ferdy Carneiro, Machadão e Célia, minha mulher, de executar meu desejo.
Ruy Espinheira Filho, vate de estro rápido e certeiro, lá de Salvador mandou-se o poema que batizou de “A vontade”:
**”Jaguar que também é Sérgio
de Magalhães Jaguaribe
fez registrar em cartório
que, ao concluir a vida
seja seu corpo cremado
e as cinzas distribuídas
pelos bares em que haja
eventualmente bebido.
Fato que assaz preocupa
a nomeada executora
da vontade – Célia, a própria
mulher do cujo, doutora
que de hábito leva tudo
com espírito folgazão
e agora se preocupa
de grave preocupação.
Pois, não sendo seu marido
tão amplo de carnes quão
vasto em deveres etílicos,
seja difícil cumprir-se
essa vontade : que as cinzas
jamais serão suficientes
a tantos bares bebidos,
mesmo se distribuídas
com extrema contenção,
cabendo apenas a cada
não mais do que um quinhão
parco, breve, limitado
à quantidade de um grão”.**
“Irrelevante preocupação, retruco. Se acharem que é muito bar para pouca cinza basta incinerar um pangaré velho para inteirar.
Evidentemente é trabalho (e porre) para vários dias, páreo duro com a morte de Quincas Berro D’Água, que Jorge Amado descreveu na sua obra-prima. Albino Pinheiro e eu que, juntos, organizamos festas memoráveis, não merecíamos perder essa pândega.
Eis que aparece um idiota lá de Brasília, que resolveu atrapalhar a minha vida, digo, minha morte, inventando uma lei que obriga todo cidadão a doar seus orgãos, a menos que conste expressamente no seu documento de identidade que não deseja fazê-lo. Impossível imaginar algo mais invasivo, prepotente e fascista.
Quando acabar essa crônica, vou encarar uma fila no IFP para tirar nova identidade com a cláusula impeditiva. Mesmo porque coitado do cara que ganhar meu fígado para transplante. Ou meu olho míope. Meus ouvidos moucos. Cérebro amnésico. Coração com disritmia. Países-baixos vasectomizados.
Tudo caindo aos pedaços, com prazo de validade vencido. Mas para mim tem um valor afetivo, afinal, estão comigo desde o começo. Aqui, ó, que vão me lotear. Vou torrar tudo”.

