**Famoso por incorporar receitas típicas da culinária amazônica, o jambu tem se tornado objeto de novas pesquisas que buscam entender (e confirmar) as características únicas da planta, como seu efeito de formigamento na boca**
**Tião Maia, O Aquiri **
Milenar entre os povos tradicionais e primeiros habitantes da Amazônia, nativo da região amazônicaa, o jambu (Acmella oleracea) é famoso por causar um leve formigamento quando consumido ou utilizado no corpo. Essa característica, aliada ao alto valor nutritivo da espécie, permitiu que essa pequena planta conquistasse espaço em muitas receitas da culinária amazônica — sobretudo na região Norte do país. No Acre é utilizado sobretudo na gastronomia, no tacacá, herdado da cozinha do Pará, que por sua vez herdou dos povos tradicionais, e mais recentemente passou a ser utilizado na cozinha tradicional amazônica, em grandes restaurantes como principal ingrediente da rabada no tucupi.
O poder de “dormência” da planta, que pode ser encontrada até em áreas urbanas da região, desperta o interesse de outros setores da economia, como as indústrias farmacêutica e dos cosméticos, que tentam aproveitar as particularidades de uma planta que já vem sendo utilizada por comunidades indígenas há muito tempo. Os efeitos e benefícios do jambu também trazem novas possibilidades para a ciência. A partir de novas pesquisas, a espécie tem se tornado um ingrediente-chave para a bioeconomia brasileira, contribuindo para um campo que cresce a partir do desenvolvimento de produtos sustentáveis e que valoriza o manejo tradicional do bioma amazônico.
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**Jambu da Amazônia**
Uma dessas iniciativas é liderada por pesquisadores do Laboratório de Tecnologia Supercrítica (Labtecs), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA). Desde 2019, cientistas desenvolvem aplicações para transformar produtos à base de jambu em itens de bioinovação, aproveitando o conhecimento vindo de técnicas indígenas transmitidas entre gerações.
A lista de criações é variada. O catálogo inclui um filme orodispersível de rápida dissolução, indicado para aliviar quadros de boca seca em pacientes com câncer, cremes faciais antienvelhecimento, lubrificantes íntimos com efeitos estimulantes e enxaguantes bucais sem álcool.
Enquanto isso, outros estudos exploram as propriedades antiarrítmicas do jambu — ou seja, o potencial de suas substâncias para corrigir anormalidades na frequência cardíaca humana.
“São características verdadeiramente únicas”, segundo Ana Paula Silva, doutoranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela UFPA e pesquisadora do Labtecs. “É uma planta incrivelmente versátil, com aplicações medicinais, para os cosméticos e alimentos funcionais. Pouquíssimas espécies nativas oferecem uma gama tão ampla de possibilidades.”
Muito antes de seu nome virar febre musical pelos quatro cantos do país, o caldo aromático, feito tradicionalmente com tucupi (extraído da raiz da mandioca-brava), goma de tapioca dissolvida, folhas cozidas de jambu e camarão, entre outros ingredientes, já vinha sendo servido nas ruas e restaurantes da capital Belém e nas demais cidades da região. É o famoso tacacá.
A leve picância e o efeito de formigamento que tornam a planta tão marcante — e cobiçada — vêm do espilantol, um composto bioativo com propriedades anestésicas e anti-inflamatórias naturais. A substância também tem características que estimulam a salivação, especialmente em seus botões florais.
Por muitos séculos, comunidades indígenas e não indígenas da Amazônia têm aproveitado esses efeitos, usando o jambu para fazer chás, medicamentos para dores do dia a dia e até na pesca — por sua leve capacidade “sedativa”, a planta pode atordoar os peixes brevemente, facilitando a captura.
Além de aliviar incômodos cotidianos, como dores de dente, os remédios caseiros preparados à base de jambu são utilizados para tratar diferentes doenças e complicações, até mesmo as consideradas mais complexas. Problemas como indigestão, cálculos no trato urinário, enfermidades hepáticas, quadros respiratórios e até anemia e casos de escorbuto, causado pela falta de vitamina C no organismo, são tratados com o uso da planta em uma de suas variações.
Embora a maior parte dessas aplicações seja fruto de conhecimentos ancestrais, a ciência observa tudo isso bem de perto.
Estudos desenvolvidos nos laboratórios do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, ligado à UFPA e com sede em Belém, confirmam cientificamente os efeitos transmitidos por meio da cultura popular.
Investigações mostraram que o espilantol interage com os receptores nervosos para proporcionar alívio temporário da dor, melhorar a circulação e reduzir a inflamação. Análises laboratoriais também descobriram que o composto pode causar efeitos benéficos ao sistema cardiovascular, ajudando, como já se supunha, a prevenir sintomas de arritmia.
Pesquisas em andamento no PCT também destacaram o potencial farmacêutico do espilantol para a saúde bucal de pacientes oncológicos. De acordo os especialistas, o filme de dissolução rápida produzido a partir dos compostos da planta tem um efeito duplo: à medida que ameniza dores locais, ele também estimula a produção de saliva, eliminando a necessidade de hidratação constante.
Enxaguantes de jambu, por sua vez, ajudam no cuidado com a higiene, produzindo, mesmo sem álcool, uma ação antimicrobiana considerada eficiente para pessoas com gengivas sensíveis.
Para os cientistas consultados pela Mongabay, essas bioinovações representam um “passo significativo” nos cuidados naturais para a saúde da boca, oferecendo alternativas práticas e, acima de tudo, sustentáveis.
“Nós também estamos usando o jambu em cosméticos com efeitos sensoriais, sem contar os itens de alimentação funcional, que levam óleo, pó liofilizado e condimentos derivados do jambu”, disse Silva.
“A planta é ideal para todas essas aplicações, uma vez que combina três qualidades muito valorizadas hoje em dia: bioatividade, sensorialidade e a origem amazônica. Para mim, é o exemplo perfeito de como a ciência pode transformar o conhecimento tradicional em soluções inovadoras para a saúde.”
Legenda para foto da professora
A pesquisadora Ana Paula Silva exibe amostras de laboratório onde estuda o jambu há mais de cinco anos. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

