**Fungo que invade hospitais europeus é imune a medicamentos. **
**Dilson Ornelas, Rio de Janeiro **
Em um cenário que lembra os piores pesadelos da pandemia de Covid-19, um fungo resistente a medicamentos, agora renomeado como Candidozyma auris (anteriormente conhecido como Candida auris), está se espalhando como um fantasma pelos corredores de hospitais ao redor do mundo. Sem sintomas específicos – apenas febre e calafrios que podem sinalizar infecções graves na corrente sanguínea, feridas ou ouvidos –, esse patógeno oportunista ataca os mais vulneráveis: pacientes imunossuprimidos, em unidades de terapia intensiva (UTIs) e com cateteres ou ventiladores.
No Brasil, onde o sistema de saúde ainda se recupera de anos de sobrecarga, o alerta soa alto: o fungo já chegou há anos, mas atualizações recentes pintam um quadro preocupante de subnotificação e pouca preparação.
O C. auris, classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um patógeno fúngico de prioridade crítica, não é novidade no país. O primeiro caso foi registrado em dezembro de 2020, em uma UTI de Covid-19 na cidade de Salvador, na Bahia, afetando dois pacientes colonizados – ou seja, portadores assintomáticos que podem transmitir o fungo. Desde então, surtos isolados foram reportados em hospitais de estados como São Paulo e Rio de Janeiro, muitas vezes ligados a pacientes com comorbidades graves, como diabetes e insuficiência renal. Atualizações de 2025, baseadas em estudos epidemiológicos na América Latina, indicam que o fungo circula em pelo menos sete países da região, incluindo o Brasil, com uma prevalência crescente em ambientes hospitalares superlotados. No entanto, dados oficiais do Ministério da Saúde são escassos: não há vigilância nacional sistemática, e os casos reais podem ser subestimados em até 50%, segundo estimativas da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
A grande interrogação que paira sobre o Brasil é: esse fungo pode se tornar endêmico aqui, como já ocorre em partes da Europa e dos Estados Unidos? A resposta é um sim alarmante, impulsionado por fatores locais. O C. auris se alastra rapidamente em hospitais devido à sua capacidade de sobreviver por semanas em superfícies como maçanetas, monitores e termômetros axilares – itens comuns em UTIs brasileiras, onde a limpeza nem sempre segue protocolos rigorosos.
Com o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda lidando com filas de espera e escassez de recursos, a transmissão nosocomial (dentro dos hospitais) é facilitada. Estudos recentes apontam que pacientes com ventiladores mecânicos ou cateteres centrais – comuns em casos de Covid-19 pós-pandemia – têm risco 25 vezes maior de infecção. E o pior: 91% das cepas são resistentes ao fluconazol, um antifúngico barato e amplamente usado no Brasil, limitando opções terapêuticas a drogas mais caras e raras, como equinocandinas.
**O BRASIL NÃO ESTÁ PREPARADO**
Os hospitais brasileiros estão preparados para essa ameaça? A resposta curta é não – e isso é uma bomba-relógio. Uma análise de 2025 da Opas revela lacunas críticas: apenas 40% das unidades de saúde no país têm laboratórios capazes de identificar o C. auris com precisão, já que testes convencionais o confundem com outras leveduras inofensivas.
Protocolos de controle de infecções, como triagem de colonização em pacientes de alto risco e desinfecção com produtos EPA-registrados (eficazes contra o fungo), são adotados de forma irregular. Em um levantamento informal entre hospitais de São Paulo e Rio, menos de 30% relatam treinamentos regulares para equipes sobre o patógeno. Especialistas como o infectologista Arnaldo Colombo, da Universidade Federal de São Paulo, alertam:
“Sem vigilância ativa, um surto em uma UTI pode se espalhar para redes inteiras, como vimos na Venezuela vizinha, onde o fungo causou epidemias em 2021”.
O Ministério da Saúde anunciou, em julho de 2025, um plano piloto de monitoramento em 10 hospitais federais, mas críticos dizem que é pouco e tarde demais.
**MORTALIDADE ALTA**
E a mortalidade? É o calcanhar de Aquiles desse fungo traiçoeiro. Taxas globais variam de 30% a 60% em infecções invasivas, como candidemia (presença no sangue), mas podem chegar a 72% em pacientes críticos, segundo uma meta-análise de 2025 publicada no Journal of Infection.
No Brasil, dados preliminares de surtos em UTIs de Covid-19 mostram uma letalidade bruta de cerca de 45%, agravada pela resistência multirresistente e pelo atraso no diagnóstico – sintomas inespecíficos como febre são atribuídos a outras causas. Em comparação com outras Candida spp., o C. auris não só mata mais, mas prolonga estadias hospitalares em até 13 dias, elevando custos e riscos de superinfecções. “É uma sentença de morte para quem já está frágil”, resume uma enfermeira de UTI em Belo Horizonte, que prefere anonimato.
**EUROPA ASSOMBRADA**
Enquanto o Brasil luta para blindar seus hospitais, a Europa serve de espelho sombrio – e atualizado. Na quinta-feira (11), o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) divulgou um levantamento alarmante: 1.346 casos graves de infecção por C. auris foram registrados em 2023, um salto de 67% em relação a 2022, totalizando mais de 4.000 ocorrências na União Europeia e países vizinhos desde 2013. Espanha (1.807 casos), Grécia (852), Itália (712), Romênia e Alemanha lideram o ranking, com transmissão tão disseminada que surtos individuais já não se distinguem – é endemia regional em redes hospitalares.
Atualizações de 2025 revelam surtos recentes em Chipre, França e Alemanha, com o fungo se instalando em UTIs de Covid-19 remanescentes e resistindo a desinfetantes comuns.
O ECDC, em sua quarta pesquisa sobre o tema, destaca “lacunas urgentes” em vigilância: apenas 17 de 36 países têm sistemas nacionais de monitoramento, e 15 contam com diretrizes específicas de prevenção. Na Itália, um surto na região da Ligúria, iniciado em 2019, explodiu para 277 casos em 2021, impulsionado pela pandemia. Na Grécia e Espanha, o fungo se espalhou em cinco a sete anos, de casos isolados a transmissão contínua.
“Ele se estabelece em hospitais como um invasor silencioso”, alerta Diamantis Plachouras, chefe de Resistência Antimicrobiana do ECDC. Medidas como triagem de colonização e limpeza com UV-C estão contendo alguns focos, mas o risco de exportação para o exterior – via pacientes repatriados – é real.
O C. auris não é invencível, mas exige ação imediata. No Brasil, urge uma vigilância nacional obrigatória, treinamento em massa para equipes de saúde e investimento em diagnósticos moleculares. Na Europa, o ECDC clama por coordenação transfronteiriça. Para pacientes e famílias, o recado é claro: em hospitais, exija higiene rigorosa. Esse fungo não avisa quando ataca – mas nós podemos nos preparar antes que ele chegue para ficar.

