**Nascida em Rio Branco numa família de origem libanesa, viveu no Acre até se aposentar, no início dos anos 2000, quando foi morar na Bahia; Ultimamente vivia em Brasília, enfrentando um câncer**
**Tião Maia, O Aquiri**
A escritora e advogada Leila Jalul Bretz, assessora jurídica aposentada da Universidade Federal do Acre (Ufac), faleceu em Brasília nesta quinta-feira (18/9), aos 76 anos, ao perder a batalha para um câncer contra o qual lutava fazia pelo menos dois anos. Acreana de Rio Branco, descendente de uma família de libaneses, dos muitos que ajudaram a colonizar o Acre, Leila sempre foi uma mulher intensa e inquieta, bem à frente de seu tempo, cujo comportamento lembra uma outra Leila, a atriz Leila Diniz, que morreu vítima de um acidente aéreo em 1972, próximo à cidade de Nova Delli, na Índia, aos 22 anos de idade. Como aquela moça, a nossa Leila, também em sua juventude e mesmo na idade mais amadurecida, era como chama viva em gelo, dando novas formas, a sua forma, em tudo em seu redor. Quando não estava escrevendo, estava pintando, rindo, contando piadas, enfim, vivendo…
Viveu em Rio Branco até se aposentar, nos idos de 2000. Foi embora para Bahia, mas, ao se sentir atingida pela doença, foi para Brasília, onde tinha parentes e muitos amigos. A morte a encontrou na Capital Federal – encontrou é modo de dizer, já que uma mulher como Leila não era mesmo de fugir de coisa alguma. Escreveu crônicas, contos e poesias num fazer literário que trouxe à vida livros como “Minhas vidas alheias”, obra que marcou sua entrada no círculo dos contistas. Aliás, ela apresentou-se como cronista no livro “Suindara”, de 2007, e “Das cobras, meu veneno”, de 2010. Como poeta, revelou-se ainda mais em “Coisas de Mulher, coisas comuns, coisas de mim”, de 1990, e “ Absinto maior “, também de 2007.
Numa entrevista à jornalista e escritora Vássia Vanessa, para o extinto Blog Almanacre, em 2014, ela falou de seu livro “Coisas de Mulher…”.
– Eu contei sobre viver enlatada na burocracia e entalada ao lado do Marmo. Por toda uma vida escrevi despachos, pareceres, ofícios e memorandos. Quando separei do Marmo e quebrei a perna em oito lugares, fiquei de cama e aproveitei para chamar a vida à tona.
O Marmo aí vem a ser o jornalista Antônio Marmo, que no início dos anos de 1970 desembarcou no Acre, ao lado do seu colega de seminário como frade e jornalista Sílvio Martinello, que logo passaria a ser correspondente do extinto Jornal do Brasil, e logo seria o grande amor de Leila Jalul, já na época, em plena ditadura militar, uma mulher libertária cuja casa, na Rua Floriano Peixoto, com seu quintal enorme, era ponto de encontro de artistas, poetas e outros desgarrados. É claro que nesses encontros rolava de tudo, da cachaça à maconha em festas que Leila, embora não fizesse uso daqueles produtos – ia só de cerveja, em latinhas de Skol – acabava por bancar tudo, inclusive a comida que mandava comprar no restaurante do Hotel Inácio, na época o melhor da cidade. Hospitalidade e generosidade eram com ela mesmo.
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**Liela Jalull entre a juventude e a fase de se descobrir escrevendo**
Voltemos à entrevista à Vássia Silveira:
**Vássia – Como você começou a escrever?**
**Leila -**Foi quando comecei a ensaiar as primeiras letras queridas. Tudo muito simples e eivado de contradições. Decidi dar uma voltinha na infância e foi ai que começou a minha vida de artista. Um dia, Elson (Martins), Toinho Alves e Altino Machado foram comer meu rabo no tucupi e foi quando falei que tinha uns textos guardados. Altino já tinha o blog. Eu nada sabia de computador. De Olivette e Remington, sabia tudo.
Para mandar o primeiro texto foi uma novela. Fui xingada e execrada. Altino me chamava de burra! Depois o Elson também gostou. Outros gostaram. E foi assim. Foi assim que nasceu Suindara.
**Vássia – Isso foi em que ano, Leila?**
**Leila -** A realidade dos fatos é uma: Marmo sofreu até conseguir separar de mim. Hoje entendo isso. Não foi nada fácil. O ano de ensaio da separação foi 1993. O da separação propriamente dita foi 1995, começo de 95. Neste mesmo ano lancei Coisas de Mulher. Eu já sentia necessidade de escrever. Morri muitas vezes para dar vida ao Marmo. Ele era pesadão. E negro! É difícil ser negro, é difícil ser pobre. Ser pobre e negro! – revelou-se.
Na mesma entrevista, Leila revela que, no Acre, ouviu “coisas” que já nãoq se permitiria sequer lembrar. “Muitos amigos meus não entendiam o meu vigor casado com o peso do Antonio. Mas se quiser ser honesta, decente e falar de amor de forma clara e limpa, digo: Marmo foi o único amor que tive na vida. Pena que ele não sabia disso. Senão… (teria corrido atrás de outro rabo de saia bem antes!)
**De novo, a entrevista:**
**Vássia – Voltamos pra estaca zero? Ao início?**
**Leila **- Não, acho que voltamos aos amores… Até que ponto você acredita que o amor (e mais ainda sua ausência) é alimento para a literatura? Você conhece algum poeta alegre e saltitante? Se a dor ensina a gemer… Sou chegada aos parnasianos. Aos românticos. Aos viscerais. Gosto de Augusto dos Anjos. Agora mesmo vou te mostrar a cobra e o pau de um dos meus poemas baseados nos simbolistas. Aguarde. É cheio de aliterações e de dor.
**Vássia – Você tinha falado antes que morreu muitas vezes para dar vida ao Marmo. Como era esse “morrer”?**
**Leila -** Depois de nossa ida para São Paulo ele foi trabalhar na Globo. Deixei de ser a Leila para ser uma brega do Acre casada com o Marmo globeleza. Para arrumar a vida a dois perdi muito da espontaneidade. E da vergonha, também! A Globo, o ambiente da Globo, numa cidade do interior paulista, mudou a personalidade do rapaz. Eu vi e senti as coisas assim. Ele deve ter a versão dele.
**Vássia – Como vocês se conheceram?**
**Leila – **Conheci o Marmo em 69. Ele foi para o Acre junto com o Sílvio Martinello, cumprir um expurgo. Ambos eram seminaristas (frades) e escreveram um artigo com uma imagem de Jesus atrás das grades. O título do artigo era O Procurado. Essa é a história que sei. A que gravei na mente. No Acre, continuaram freis e faziam o programa da Ave Maria na Rádio Difusora, acho. Eu, na época, fazia parte de um grupo de jovens sob o comando do Clodovis Boff, primo do Leonardo (Boff). As reuniões dos jovens aconteciam na residência dos padres, no segundo piso do Colégio Meta e numa saleta de uma igrejinha que derrubaram. Havia muito mais que isso e muitas outras pessoas conhecidas, mas preciso resumir. Foi através desse grupo de jovens que conheci o meu primeiro marido, um alemão de boa índole. Com ele namorei e casei. Ele trabalhava como monitor do Senai e também morava na casa dos padres.
De 69 até 77, 78, convivi com o Marmo como “maninhos”! Ele ficava no Acre, ficava em São Paulo… Nos correspondíamos, enfim. Em 77, 78, não lembro ao certo, já separada, Marmo foi à minha casa e… rolou! Ele já não era mais frei. Era homem. Só homem!
**Vássia – Ah, então você teve um casamento anterior?**
**Leila -** Sim, casei com o alemão que dava aulas de marcenaria na oficina dos padres. Um homem bom. Casei de papel passado. Vivi apenas quatro anos com ele. Viramos amigos. Também sou “amiguinha” do Marmo. Com reservas, mas sou.
**Vássia — E como era o nome desse amor alemão?**
**Leila ** – Altir Bretz. É o pai do Eulen. Até pouco tempo atrás eu o via. Ele sempre visitava o filho na Bahia.
**Vássia Vanessa – Como é ser amiga, com reservas, do grande amor?**
**Leila – ** Por ter perdoado a falta de lealdade. O fato do seu homem arranjar e desejar uma nova parceira, é bastante comum. E não é caso de vida ou morte. Mas que avise a idiota que lhe queria bem. Foi esse o grande pecado do Marmo: deslealdade. Ele viveu vida dupla por cinco anos. Não posso falar de fidelidade. Isso é outro departamento! Bastava que tivesse sido leal. Como na música da Nora Ney, eu sairia pela porta por onde entrei. Mas uma coisa é certa: se Marmo me fez mal, também devo ter feito muito mal a ele.
**Vássia – Leila, quando eu voltei para o Acre, em 1999, você parecia estar vivendo um autoexílio. Era isso mesmo?**
**Leila **- Sim. E nele continuo. As decepções me fizeram arredia. Ganhei de presente uma síndrome do pânico e minha vida desandou. Agora sei que ainda tenho o pânico, mas decidi que ele não me tem. Desmamei do Rivotril e dispensei os psicólogos e psiquiatras. De l993 a 2012… Chega, não é? Minha terapia é escrever. Como disse alguém do Acre, escrever é distribuir abraços. No meu caso, escrever é tirar espinhos do peito. Tiro do meu e enfio no dos outros. A palavra, então, ocupa papel importante na sua vida…A palavra, a latinha e o cigarro. Ainda não tive vergonha para abandonar o vício. Apenas reduzi. Também reduzi as latinhas. As palavras podem correr frouxas! Não têm efeitos colaterais.
**Vássia – Como é seu processo de criação?**
**Leila **- Não tenho processo. Tenho estalidos. Às vezes lembro de uma música, ou de uma pessoa, ou de um caso e anoto. Sou uma pessoa descuidada com a escrita. Preciso cuidar das vírgulas. Preciso não cansar o leitor. Sei que meus livros (já estou preparando o sétimo) jamais despertarão o interesse dos “grandes” editores. Nem penso em venda. Estou sob exame de uma editora que tem nome de gigante. E que vai ser gigante. Vamos ver o que acontecerá. Quando decidi sistematizar o que escrevo e colocar em livros, acredite, foi por puro deleite. Talvez queira que meus netos saibam quem foi a avó deles. Acho que é isso. Estou pensando em dar uma parada em publicar nos sites e blogs. Tenho algumas ideias para me aventurar num romance. Já tenho até o título: A Cornuda do São Francisco. Bem sugestivo, não? É que eu morava no Bairro São Francisco.
**Vássia – O que é um bom conto para você?**
**Liela -** É o que os outros escrevem! Gosto dos contos que deixam coisas em suspenso. Mas tenho pecado com a obviedade. Gosto de contar coisas que aconteceram. Daí o pecado: as coisas ficam com começo, meio e fim… Se eu soubesse, escreveria contos sem final. O leitor que decidisse. Tem um autor que não lembro agora que não finaliza nada. É como um “cointo” interrompido.
**Vássia – Como você vê a literatura produzida no Acre?**
**Leila -** Não tenho lido nada daí. Li o primeiro livro do (Sílvio) Martinello e gostei muito. Não li os outros dois por falta de uma visão decente. Gosto do Marcos Vinicius. É um historiador, eu sei. Não li o Moisés Diniz. Gostaria mesmo de ler um livro escrito pelo Toinho Alves e outro pelo Elson. Talvez fosse bem genuína. Bem acreana.
A família e os amigos não informaram sobre velório nem o loal de sepultamento, mas certamente Leila Jalul será sepuyltada em Brasília, no Planalto central, bem longe da curva do rio Acre e da Gameleira que ela tanto reverenciava.

