IBGE traz desafios ao Acre: Como vencer tantos problemas?

**Dilson Ornelas, Rio de Janeiro **

Os novos dados da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quinta-feira (28), que atualizam a população brasileira estimada em 213.421.037 milhões de habitantes, nos fazem pensar com mais seriedade sobre o nosso Acre. Em primeiro lugar, é um erro comparar os municípios do Acre com os de outras regiões do país, porque poucos enfrentam os desafios que a população acreana enfrenta. Assim, vamos resistir a essa tentação para entender por que não crescemos como precisamos. Mas, vamos direto ao assunto: o que precisamos fazer?

Todo acreano cresce sabendo que temos um contraste marcante entre potencial natural e entraves socioeconômicos. De acordo com o IBGE, o Acre contava com uma população de 830.018 habitantes no Censo de 2022, estimada em 880.631 em 2024, com uma densidade demográfica baixa de apenas 5,06 habitantes por km², quando comparada à extensão do território.

Essa dispersão geográfica reflete os desafios estruturais que impedem o desenvolvimento pleno de seus 22 municípios. Apesar de um crescimento resiliente no PIB estadual e na agropecuária, problemas como isolamento geográfico, deficiências em infraestrutura, epidemias endêmicas, alta informalidade no mercado de trabalho e desigualdades de renda concentram a prosperidade em poucos polos urbanos, deixando regiões rurais à mercê de programas sociais.

Vejamos, por exemplo, o caso desses municípios ocidentais. Porto Walter tinha uma população de 10.735 em 2022, agora estimada em 11.275 em 2024. Jordão tinha 9.222 em 2022, e agora, em 2024, tem 9.787. Santa Rosa do Purus, que possuía 6.723 em 2022, em 2024 tem 7.143. Seus desafios estruturais são os maiores obstáculos para o desenvolvimento e melhorias no bem-estar de suas populações, pois são acessíveis praticamente apenas por rios ou aviões, com estradas precárias ou inexistentes durante as cheias.

Esse isolamento logístico eleva os custos de transporte, limita o comércio e atrasa investimentos. Por exemplo, em Porto Walter, o PIB per capita era de apenas R$ 12.846 em 2021, abaixo da média estadual, refletindo uma economia rural dependente de subsistência. Sem conexões eficientes, esses locais enfrentam dificuldades para atrair indústrias ou turismo sustentável, perpetuando ciclos de pobreza.

**Gargalos: Energia, Internet e Transporte**

A infraestrutura deficiente agrava o isolamento, já que muitos municípios rurais dependem de geradores a diesel para energia, o que é caro e poluente, enquanto o acesso à internet é limitado, prejudicando a educação remota e os negócios digitais.

No geral, o estado do Acre teve apenas 367.440 veículos registrados em 2024, sinalizando baixa mobilidade. Em regiões como o oeste, a falta de pavimentação e pontes modernas impede o escoamento de produtos agrícolas, como a castanha e o açaí, que poderiam impulsionar a economia local.

Dados do IBGE mostram que 50% dos municípios acreanos tinham PIB per capita abaixo de R$ 14.700 em 2019, uma tendência que persiste, com concentração econômica em polos como Rio Branco, que detém cerca de 75% do emprego formal estadual, conforme análises socioeconômicas recentes.

**Desafios em Saúde e o Inimigo Silencioso**

A saúde pública é outro entrave, com epidemias endêmicas como a malária afetando principalmente áreas isoladas. Em 2023, o Brasil registrou 140.265 casos autóctones de malária, um aumento de 8,8% em relação a 2022, com a maioria concentrada na Amazônia, incluindo o Acre.

Cruzeiro do Sul, polo ocidental com 91.888 habitantes em 2022 (estimados 98.382 em 2024), registra alta incidência dessa doença, agravada pela proximidade com florestas e vetores mosquitos.

A mortalidade infantil no estado varia: em Santa Rosa do Purus, atingiu alarmantes 69,65 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, contra 16,9 em Rio Branco. Essa heterogeneidade reflete desigualdades no acesso a serviços médicos, com hospitais concentrados na capital.

**Informalidade e Desigualdade de Renda**

Enquanto os municípios do interior não resolverem problemas graves de informalidade e saúde, e não contarem com ajuda federal para superar os gargalos de infraestrutura, Rio Branco estará sempre sobrecarregada e não oferecerá maior qualidade de vida para seus habitantes.

A informalidade domina o mercado de trabalho, com poucos polos gerando empregos formais. O rendimento mensal domiciliar per capita estadual era de R$ 1.271 em 2024, mas com desigualdades acentuadas. Municípios rurais dependem de transferências como o Bolsa Família – em 2021, Rio Branco já tinha 26 mil famílias beneficiadas, e dados nacionais de 2023 mostram queda na pobreza extrema, mas persistência na Amazônia.

O IDH estadual é de 0,71 em 2021, mas varia drasticamente: Jordão tem apenas 0,469 (2010), indicando baixa qualidade de vida. Essa desigualdade fomenta a migração para centros urbanos, sobrecarregando Rio Branco, que concentra serviços, saúde e comércio.

**Municípios que Vencem os Desafios**

Mas nem tudo é estagnação. Rio Branco, com PIB per capita de R$ 26.119 em 2021 e IDH de 0,727, atua como hub regional, impulsionado pela urbanização e diversificação em serviços.
Cruzeiro do Sul, com R$ 22.935 per capita, avança na agropecuária e serviços, apesar do isolamento, consolidando-se cada vez mais como um polo de desenvolvimento no Vale do Juruá.

No leste, Brasiléia (PIB per capita R$ 25.279) e Assis Brasil (R$ 17.508) exploram o potencial exportador de carne, com conexões internacionais via fronteira, e apresentam mortalidade infantil baixa (5,78 e 7,78 por mil em 2023). Esses municípios mostram resiliência por meio de parcerias transfronteiriças e investimentos locais.

**Quem Precisa de Atenção Maior?**

Por outro lado, municípios ocidentais como Porto Walter, Jordão e Santa Rosa do Purus demandam urgência. Com IDHs abaixo de 0,55 e PIBs per capita baixos, eles enfrentam pobreza alta, energia precária e saúde vulnerável – Santa Rosa destaca-se pela alta mortalidade infantil.

Políticas públicas devem priorizá-los, com alocação de recursos federais para combater desigualdades, como previsto no Plano Nacional de Saúde.

**Quais são as Soluções?**

Para superar esses entraves, o Acre precisa de ações integradas. Em infraestrutura, investimentos em estradas pavimentadas e expansão da rede elétrica renovável (como hidrelétricas pequenas) poderiam reduzir o isolamento, com projetos como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) priorizando a Amazônia.

Na saúde, campanhas intensivas contra malária, com distribuição de mosquiteiros e medicamentos, aliadas à telemedicina para áreas remotas, são essenciais.

Para combater a informalidade e a desigualdade, incentivos fiscais para formalização de empregos na agropecuária sustentável e treinamento profissional via Pronatec poderiam diversificar a economia. Além disso, expandir o acesso digital – com internet via satélite – impulsionaria a educação (onde a escolarização de 6 a 14 anos já é alta, acima de 95% na maioria dos municípios) e o e-commerce.

Finalmente, políticas de redução de desigualdades, como o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, devem focar em transferências condicionadas e monitoramento via IBGE para medir progressos.

O Acre demonstra potencial com seu crescimento no PIB e recursos naturais, mas, sem intervenções urgentes, os desafios amazônicos crônicos persistirão.

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