Encontrada na Serra do Divisor, no Acre, pequena inhambu pode ser ave declarada extinta há 300 anos, dizem pesquisadores

Tião Maia O Aquiri

O Parque Nacional da Serra do Divisor, no município de Mâncio Lima, interior do Acre, na região do Vale do Juruá na divisa do Brasil com o Peru, uma área apontada como o local de maior biodiversidade do Planeta em relação a animais e vegetais, pode ser também o lar de uma ave dada como extinta desde o século XVII, quando foi vista pela última vez nas Ilhas Maurício – território localizado no sudoeste do Oceano Índico, a cerca de 2.400 km a sudeste do continente africano e a aproximadamente 855 km a leste de Madagascar. Trata-se de um tipo de inhambu identificada como “dodô” (Raphus cucullatus), a qual tornou-se um ícone de extinção quando desapareceu da Terra, há três séculos, nos anos de 1700, após os colonizadores holandeses encontrarem a ave pela primeira vez na Ilhas Maurício.

Ornitólogos anunciaram terem descoberto a própria ave – ou um tipo muito parecido – na Amazônia. Aarebtemete, seria o sururina-da-serra (Tinamus resonans), um inhambu, da família Tinamidae semelhante a uma galinha e aparentemente sem medo de humanos. E eles estão analisando o caso do dodô para evitar que a espécie recém-identificada tenha o mesmo destino.

A comparação com o dodô foi “cientificamente precisa”, segundo Luis Morais, doutorando em zoologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro e autor principal do artigo que anuncia a descoberta, publicado na última terça-feira (2/12), na revista Zootaxa. “O comportamento da ave espelha relatos históricos do extinto dodô, e seu risco de extinção é igualmente real”, apontou o pesquisador.

A Ave tem plumagem marrom com pescoço alongado. De acordo com os especialistas, a maioria dos inhambu são tímidos e têm uma coloração que lhes permite se misturar ao ambiente. O sururina-da-serra, por sua vez, é adornado com uma plumagem vívida de cor canela-ruiva com uma faixa escura através dos olhos.
O mais incomum é seu comportamento despreocupado. A equipe de Morais passou três anos tentando avistar a ave, depois de detectá-la pelo som pela primeira vez em outubro de 2021. Quando finalmente a encontraram, ela se mostrou mansa, vagando calmamente e não demonstrando aversão à presença humana. Os pesquisadores ficaram surpresos quando, em várias ocasiões, indivíduos da espécie caminharam diretamente até eles.

Suas vocalizações também são diferentes: chamados longos que se difundem pela floresta e confundem o senso de distância e direção do ouvinte. A voz complexa do sururina-da-serra aumenta em frequência, lembrando um pianista trabalhando uma escala, com um passo cuidadoso de cada vez.

A sua descoberta deu-se na Serra do Divisor, no município de Mâncio Lima, no Acre.

O dodô (Raphus cucullatus) era uma ave que não voava e vivia nas ilhas Maurício. “Esse pássaro é um cantor de ópera,” disse o biólogo Diego Calderón-Franco. Especialista em aves, ele não participou da nova pesquisa, porém revisou as descobertas, incluindo as gravações de áudio, antes da publicação do artigo. “Ele tem uma voz como nenhuma outra, que ganha energia enquanto canta e ressoa por todos os cantos onde vive.”, disse.

Seu nome científico refere-se ao notável eco e à acústica desorientadora de seu canto. Acredita-se que o pássaro seja a primeira nova espécie pequena de inhambu descoberta em 75 anos.

“Alguém encontrar um inhambu totalmente novo no campo é simplesmente inacreditável”, afirmou Calderón-Franco. “O fato de que esse pássaro esteve escondido em um pequeno canto remoto do país é impressionante.”

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A ave, aparentemente, não tem medo de humanos, disseram os pesquisadores

Como o dodô, o sururina-da-serra vive em uma espécie de ilha: toda a sua área de distribuição conhecida está limitada a uma estreita faixa de elevação na serra do Divisor, na fronteira entre Brasil e Peru. A região remota e pouco conhecida é uma espécie de ilha ecológica cercada pelas terras baixas da Amazônia, com picos de quase 800 metros de altura e plantas e animais distintos ocupando micro-habitats.

Cinco outros pequenos inhambu estão presentes na serra do Divisor, mas nenhum vive nas elevações mais altas. O sururina-da-serra foi detectado numa área acima de 300 metros. A estreita faixa de elevação coloca a ave em uma situação ecológica extremamente delicada, vulnerável às crescentes pressões externas, segundo Morais.

Analogias à parte, o sururina-da-serra não tem relação evolutiva significativa com o dodô, que se aproximava mais de pombos e rolas. Mas as semelhanças —habitante do solo e ingênuo quanto aos humanos como predadores potenciais— são impressionantes e preocupantes, de acordo com o pesquisador. Sua população total é estimada em 2.000 espécimes.

“A área é quase desabitada e em grande parte intacta, mas a sobrevivência a longo prazo da espécie está longe de ser garantida”, afirmou Morais. “Espécies restritas a faixas estreitas de altitude são altamente sensíveis às mudanças climáticas.”

As florestas nessas áreas são como prédios de apartamentos, com diferentes animais habitando diferentes andares, e as espécies frequentemente sobem para altitudes mais elevadas conforme as temperaturas aumentam. Espécies que atingem o topo não têm para onde ir mais alto.

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