**Frei Chico – irmão mais velho do presidente Lula deve ser convocado a depor. **
Dilson Ornelas, Rio de Janeiro
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) deu um passo decisivo nesta quinta-feira (11/9) ao aprovar a quebra de sigilo bancário e fiscal de 67 pessoas físicas e 91 associações e empresas suspeitas de envolvimento em um esquema de fraudes que pode ultrapassar bilhões de reais. Entre os alvos, destaca-se o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), entidade na qual José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico – irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – ocupa o cargo de vice-presidente.
A medida, que abrange o período de 2015 a julho de 2025, intensifica o escrutínio sobre possíveis ligações familiares com o desvio de recursos previdenciários, reacendendo debates sobre influência política no setor.
A aprovação da quebra de sigilo do Sindnapi foi um dos pontos mais polêmicos da sessão, impulsionada por requerimentos da deputada Adriana Ventura (Novo-SP) e do senador Izalci Lucas (PL-DF). Embora o nome de Frei Chico não figure diretamente na lista de pessoas físicas investigadas – uma decisão que reflete acordos prévios entre governo e oposição para evitar convocações pessoais –, o faturamento da entidade explodiu 264% entre 2020 e 2024, passando de R$ 23 milhões para R$ 154 milhões em repasses do INSS.
Parlamentares da oposição, como o deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), já sinalizam que o próximo passo pode ser a convocação do sindicalista para prestar esclarecimentos. “O próximo será Frei Chico, irmão de Lula!”, postou o deputado em rede social, ecoando o sentimento de quebras seletivas que pouparam nomes do governo em negociações anteriores.
O esquema sob investigação, revelado pela Operação Sem Desconto da Polícia Federal em abril de 2025, envolve descontos indevidos de mensalidades associativas em benefícios de aposentados e pensionistas, afetando milhões de vulneráveis. Além do Sindnapi, a CPMI mirou a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), ligada ao PT e que teria recebido valores expressivos do INSS, e a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil (Conafer), associada à Frente Parlamentar em Defesa do Empreendedorismo Rural e beneficiada com mais de R$ 100 milhões em repasses.
Entre as pessoas físicas, nomes como Alessandro Stefanutto – ex-presidente do INSS e alvo de pedido de prisão preventiva aprovado na semana anterior –, Antônio Carlos Camilo Antunes (o “Careca do INSS”) e o empresário Maurício Camisotti tiveram seus sigilos quebrados, com foco em movimentações financeiras desde acordos de cooperação técnica (ACTs) firmados com o instituto.
Em um acordo de última hora entre base governista e oposição, foram vetadas quebras de sigilo de ex-ministros da Previdência como Carlos Lupi (PDT) e José Carlos Oliveira (PP), além da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Minas Gerais (Fetaemg). A decisão, criticada por oposicionistas como uma “blindagem seletiva”, permitiu a inclusão de investigações sobre gestões anteriores, incluindo a de Dilma Rousseff, mas evitou convocações que pudessem escalar tensões no Planalto.
“Nenhuma entidade ficará fora”, prometeu o senador Izalci Lucas em entrevista recente, defendendo que as quebras são baseadas em relatórios da PF e da Controladoria-Geral da União (CGU), sem “seletividade política”.
Na mesma sessão, a CPMI ouviu o depoimento de José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência no governo Jair Bolsonaro (PL), cujo nome surgiu em análises de fluxos financeiros suspeitos de associações. Oliveira negou irregularidades, atribuindo os descontos a falhas sistêmicas herdadas de gestões passadas. A comissão, presidida pelo senador Carlos Viana (PL-MG), também solicitou relatórios de inteligência financeira (RIFs) ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre o Sindnapi, ampliando o escopo para além dos sigilos bancários.
A investigação ganha contornos ainda mais delicados com a proximidade familiar de Frei Chico ao presidente Lula, um sindicalista histórico da Força Sindical que já foi mencionado em escândalos passados, como o Mensalão. Críticos argumentam que o crescimento exponencial do Sindnapi coincide com o retorno de Lula ao poder, sugerindo possível favorecimento em negociações com o INSS. O governo, por sua vez, minimiza o episódio, destacando que as fraudes remontam a administrações anteriores e que a PF já atua com independência.
Com a quebra de sigilos aprovada, a CPMI agora aguarda o retorno das informações para traçar o fluxo de recursos desviados. Especialistas estimam que o rombo pode chegar a R$ 6 bilhões, com impactos diretos nos bolsos de aposentados que, muitas vezes sem consentimento, veem suas aposentadorias minguarem. Enquanto isso, o Planalto monitora de perto os desdobramentos, temendo que a convocação de Frei Chico – cada vez mais iminente – transforme a investigação em um front político de alto risco para o terceiro mandato de Lula. A sessão da próxima semana promete mais revelações, com a oposição pressionando por transparência total.

