Silas Malafaia: Agente do Sistema desafia a esquerda com o sacrifício da prisão

**​Dilson Ornelas, Rio de Janeiro**

Agentes trapalhões, como na antiga série de TV Agente 86, sempre foram divertidos. O pastor Silas Malafaia tem se revelado uma espécie de agente do sistema, mas com um estilo um tanto exagerado. Já o ministro do STF, Alexandre de Moraes, não acha graça alguma em ser publicamente chamado de criminoso pelo presidente da Igreja Vitória em Cristo e decide agir com ações da Polícia Federal. Por que o pastor demonstra tanta agressividade em suas declarações, e até onde quer chegar? Ele deixa a entender que já espera por sua prisão. Mas talvez você pergunte: “Ornelas, por que você diz que Malafaia é agente do sistema?”.

Ele age como um líder do sistema religioso neopentecostal, que se coloca em uma instância superior para falar em nome de Deus, com uma “visão profética sob medida” para salvar o país. “Declaro que o Brasil pertence ao Senhor Jesus” é o slogan favorito desses líderes, um jargão que Jesus, no entanto, jamais pronunciaria, porque não se parece em nada com a humildade e o espírito de mansidão que vemos na Bíblia. Ao contrário do que prega Silas, Jesus declarou: “O meu reino não é deste mundo” e “Dai a César o que é de César”, separando o que é espiritual das coisas mundanas.

Não é preciso ser sociólogo para entender que, ao se colocar como representante de Jesus, Malafaia constrói um país à sua própria imagem, e não à de Cristo. E, como se coloca na posição de profeta, sempre dirá que fala em nome de Deus, assim como faziam Isaías, Elias, Moisés e outros personagens sagrados da cultura judaica.

O pastor, que sempre pregou com aparente ira e eloquência, também discursa em palanques políticos como quem prega, com as costumeiras ameaças apocalípticas. Profetiza um cenário de terror se os evangélicos não votarem nos candidatos ungidos por ele. Essa tática de dominar pelo medo é uma especialidade dos líderes do sistema religioso. Muitos seguidores que o têm como pastor não suportariam seus gritos se não se sentissem coagidos e dominados pelo medo do inferno, do diabo e de outras maldições e ameaças. Um rebanho de ovelhas submissas a ele tem sido frequentemente tratado como um bom curral eleitoral durante as campanhas eleitorais. Isso é ótimo para os políticos que recebem essa bênção. Mas muitos evangélicos de outras denominações se recusam a concordar com essa prática, mais comum na Assembleia de Deus e na Igreja Universal.

E quem são os ungidos pelo pastor? Além do ex-presidente Bolsonaro, Malafaia atuou para a eleição de Gilberto Nascimento (PSD-SP) como presidente da Frente Parlamentar Evangélica. Criticou Bolsonaro por não ter apoiado Ricardo Nunes de forma mais enfática nas eleições municipais de São Paulo. E não esconde de ninguém seu apreço pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, com quem tem uma relação de proximidade. No Rio de Janeiro, Malafaia se empenhou na campanha vitoriosa do ex-prefeito Marcelo Crivella em 2016. Durante anos, apoiou e pediu votos no púlpito e na TV para seu irmão Samuel Malafaia (PL), deputado estadual no Rio, que recebia robusto apoio financeiro do partido na campanha, graças à influência direta de Silas em sua carreira política. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) é considerado o principal aliado de Silas Malafaia em Brasília e líder do Partido Liberal na Câmara dos Deputados. Também o deputado Alexandre Isquierdo (União Brasil-RJ) já foi agraciado com o apoio do pastor, que pediu votos para ele em eleições passadas.

Ao enxergar o pastor Silas Malafaia também como um agente político importante, as coisas fazem mais sentido. Em uma democracia representativa como a do Brasil, é natural que o poder legislativo tenha pessoas que defendam a liberdade religiosa e pautas conservadoras. Assim como é legítimo e necessário que o legislativo também tenha representantes de outras religiões e segmentos, inclusive de movimentos sociais, como os das comunidades feministas e LGBTQIA+. Não há nada de errado quando Malafaia e outros pastores incentivam seus seguidores a ocuparem espaço político; errado, talvez, seja o maniqueísmo e a manipulação dos rebanhos para atingir tais objetivos. Mesmo os católicos da teologia da libertação, que ajudaram a criar o Partido dos Trabalhadores e impulsionaram o início da carreira do presidente Lula, foram combatidos pelo Vaticano.

**O que quer Malafaia?**

A julgar por seu discurso, suas declarações contundentes e sua postura de desafio ao governo petista e ao STF, Silas Malafaia parece estar esticando a corda para aprofundar a polarização entre direita e esquerda. E está disposto, inclusive, a ser oferecer como sacrifício para sua causa. Por isso não descarta que será preso, ao dizer que não teme a prisão. Por isso mesmo tenta arrastar setores do judiciário e do governo para a vala da aparência de perseguição religiosa, o que aumentaria a pressão contra a esquerda com respaldo da comunidade internacional.

Após ser alvo de um mandado de busca e apreensão expedido pelo STF, insinuou que está sendo perseguido pelo ministro Alexandre de Moraes em retaliação às suas críticas. “Eu sabia que uma hora a conta ia chegar”, declarou Malafaia, ao ser abordado no aeroporto do Galeão. Em um culto na zona norte do Rio de Janeiro, o pastor comparou a ação da Polícia Federal à Gestapo, a polícia secreta da Alemanha Nazista. “Isso não é Polícia Federal”, exclamou, reforçando que o medo das pessoas de expressarem suas opiniões “é a maior prova de que o Estado Democrático está em perigo”.

Malafaia fez paralelos históricos, afirmando que “todas as perseguições políticas terminam em perseguição religiosa”, citando como exemplos Hitler, o comunismo na União Soviética, Coreia, Cuba e China. Ele, no entanto, afirmou que não se calará e que continuará sua “marcha naquilo que Deus o chamou para fazer”.

O pastor classificou a divulgação das conversas que manteve com Bolsonaro como “vazamento de informações”, uma estratégia para “tirar a atenção” dos supostos crimes de Alexandre de Moraes. E reforçou que Moraes “vai ser julgado, ou pelas leis deste país, ou pela ação de Deus, ou pelas duas coisas juntas. Mas ele vai cair, vai chegar a hora dele”, disparou.

Instagram: @dilson_ornelas

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