Dilson Ornelas (*)
Se você mora na Amazônia, a resposta é rápida e certeira. Senão, você precisa dessas informações.
Antes de morar no Acre, não entendia esse fenômeno dos rios com um volume de água absurdo, que cresce e ameaça as populações. Não entendia por que em outra parte do ano os rios secam tanto. Acostumado que estava a viver na beirada do mar, vendo as ondas salgadas beijando a areia, sem ultrapassar os limites impostos pelo Criador, esse universo de rios que saem da floresta, causam um certo caos, desorganizam o dia a dia das pessoas e retornam pra mata em busca do mar azul me causava uma enorme estupefação. E causa ainda.
Empregado como repórter no jornal Voz do Norte, o diretor e editor Elson Costa me solicitou que acompanhasse a situação do Rio Juruá. Isso significava, entre outras coisas, me informar sobre as medições do nível da água, milímetro a milímetro. Que suspense! Os bombeiros davam entrevista coletiva, as emissoras de rádio e TV noticiavam com estardalhaço cada milímetro que subia.
A minha primeira cheia, que em outras partes do país chamamos dramaticamente de inundação, se aproximava rapidamente. Eu tentava esconder a ansiedade, mas dentro de mim me perguntava o que aconteceria. Parecia que o mundo se acabaria em algumas horas.
Chegou o dia. Enquanto tomava café e me arrumava pra sair, ouvi as manchetes alarmantes nos programas de rádio de Chico Melo e Alexandre Gomes: começaram as remoções das famílias!
Eu e Elson pegamos um barco e circulamos por entre as casas que o rio estava encobrindo. Tiramos fotos, ouvimos os ribeirinhos, representantes dos Bombeiros e da Prefeitura, enquanto as crianças gritavam alegres e mergulhavam na água que circulava aparentemente sem pressa, lavando os assoalhos e levando coisas.
Os catraeiros, incansáveis, levavam para os caminhões fogões, aparelhos de TV, roupas, panelas, brinquedos. A energia havia sido cortada, cobras e outros bichos entravam nas casas fugindo da correnteza. Os ônibus e caminhões contratados pela Prefeitura levavam a população para os abrigos improvisados em escolas. Ali ficariam alguns dias, semanas. Cada família em uma tenda improvisada.
Respondendo, então, à pergunta: Por que medimos ou monitoramento os rios? Principalmente para prever, prevenir e minimizar os impactos das cheias — um fenômeno natural milenar na Amazônia que, no Acre, se transforma em um encontro cultural profundo entre o povo e a força da natureza.
No contexto amazônico, os rios como o Acre e o Juruá não são apenas cursos d’água: eles são vias de vida, transporte, pesca, agricultura e identidade para ribeirinhos, indígenas e populações urbanas que escolheram (ou foram levados a) viver em suas margens. As cheias representam o ritmo sazonal da floresta: na estação chuvosa (geralmente dezembro a maio), as precipitações intensas na cabeceira (Peru e Bolívia) e no próprio estado elevam rapidamente o volume, transformando rios em verdadeiros mares que invadem cidades e comunidades.
Na estiagem, o oposto ocorre — os rios secam drasticamente, como visto em 2024, quando o Rio Acre atingiu o menor nível histórico (1,23 m em Rio Branco), expondo bancos de areia e dificultando a navegação.
Por que a medição milímetro a milímetro é essencial? A medição contínua (por réguas limnimétricas, estações automáticas do Serviço Geológico do Brasil – SGB/CPRM e ANA) cria séries históricas desde 1971 (no caso do Rio Acre em Rio Branco). Essa medição permite definir cotas críticas (atenção, alerta e inundação/transbordamento — ex.: 14 m em Rio Branco).
Graças à medição, é possível emitir alertas antecipados (boletins hidrológicos com previsões), ativar planos de contingência da Defesa Civil, com abrigos, remoção de famílias e distribuição de ajuda, entender padrões sazonais e tendências de longo prazo para planejamento urbano e adaptação climática.
Morando no Acre, esse carioca entendeu que sem essa medição, o “suspense” que descrevi viraria caos total. Com ela, o que era estardalhaço vira gestão de risco.
Os prefeitos e outras autoridades sabem que parte do sucesso da gestão depende da maneira como enfrentam essas situações e viram das pessoas. Principalmente porque é quando a atenção da imprensa se encontra bastante aguçada.
Para o acreano, o rio é mestre e provedor. As cheias fertilizam as terras (várzeas), renovam a pesca, conectam comunidades — mas também testam a resiliência.
No final, medimos os rios não só por técnica, mas por necessidade de convívio. Tudo é parte de uma relação antiga: respeito ao ciclo da água, preparação para o inevitável e celebração da vida que ela traz quando recua. É o Acre em sua essência mais profunda.
(*) Dilson Ornelas é um jornalista radicado no Rio de Janeiro com larga experiência em Amazônia, principalmente da região do Juruá, onde viveu nos anos da primeira década de 2000;

