
Havíamos acabado de entrar nos anos de 1990. Pela primeira teríamos eleições presidenciais depois de 21 anos de ditadura militar e outros cinco do governo de José Sarney, que se não foi lá essa cocada preta, foi ao menos uma administração que não praticou revanchismo e, como saldo positivo, ainda convocou a Assembleia Nacional Constituinte, que nos legaria o retorno das eleições diretas para presidente da República.
O país vivia assanhado com a chegada, por assim dizer, do tão prometido “novos tempos”.
E eu, do alto dos meus 25 anos de idade, mas já com uma carreira de jornalista com pelo menos 15 anos de estrada, do alto dos meus 25 anos de idade, era uma espécie de faz-de-tudo-um-pouco na TV Rio Branco, então retransmissora do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), do grupo Sílvio Santos. Muito mais por generosidade dos donos da emissora, o casal de empresários e políticos Célia e Narciso Mendes – ele ex-deputado federal e ela deputada, em lugar do marido, que havia concorrido ao Senado e perdido a eleição, me sentia à vontade naquele meio. Isso, mesmo depois de algumas rusgas com o Narciso Mendes, que nunca foi mesmo uma figura fácil e era, na época, um deputado estadual polêmico e eu cobria as sessões da Assembleia Legislativa do Estado do Acre (Aleacc), para a extinta “Gazeta do Acre”. Mas um dia, sabe Deus o motivo, fui demitido e fui para o jornal “O Rio Branco”, então concorrente da velha “Gazeta”.
Quando me julgava tranquilo, eis que recebo a informação de que meu antigo desafeto Narciso Mendes, em parceria com dois de seus amigos, o advogado João de Castro Branco e o deputado Osmir Lima. havia comprado o jornal e sua única exigência que havia feito, segundo me contou o Walter Gomes da Silva, então diretor, em relação ao corpo redacional, seria minha demissão, a qual, aliás, seria uma exigência aceita – creio que até de bom grado – pela minha chefia imediata.
Fiquei de novo desempregado.
Depois de uns bicos aqui e ali, eu soube, pelo então prefeito Adalberto Aragão, meu bom amigo, que Narciso Mendes e seus dois sócios estavam trazendo para o Acre o sinal do SBT, Na época, o SBT vivia o seu auge, com o próprio Silvio Santos, aos domingos, passando o dia inteiro no ar e submetendo às emissoras concorrentes à correria para não perder a audiência para o homem do baú.
Fui me encontrar com Narciso Mendes, agora deputado federal, empresário, enfim, um homem então poderoso no Acre – mas ainda meu desafeto. Mas ele me recebeu como se nunca houvéssemos nos desentendido. Passei a trabalha rnas empresas de comunicação do grupo Narciso Mendes, no jornal O Rio Branco, d enovo. Quando a TV Rio Branco entrou no ar, ao saber eu eu também escrevia oara TV, acabou me levando para lá, como redator. Um dia, naquele jeito peculiar de ser Narciso Mendes, i próprio me pegou pelo braço e disse:
– Você vai dirigir tudo aqui. Tome conta como se tudo aqui fosse seu.
E assim me tornei uma espécie de faz-tudo: redator, repórter, apresentador…
E foi nesse contexto que um dia me aparece o Antônio Muniz, meu amigo e colega de redação, me pedindo para entrevistar, segundo ele, um cantor que vinha fazendo muito sucesso e que estava no Acre, divulgado suas músicas e pronto para me concede uma entrevista. Eu apresentava um programa chamado “Realidade”, na TV.
Mais por atenção a Muniz do que propriamente ao entrevistado, que não conhecia de jeito nenhum, aquiesci quanto à entrevista.
E eis que me apareceu no estúdio o tal cantor: magrinho, apresentando a minha mesma pouca idade, cabelos nos ombros, calças apertadas no limite do suportável. Era Zezé de Camargo e, talvez por jugar que não houvesse vida inteligente no Acre, me deu uma lista de sugestões de perguntas que eu lhe deveria fazer. Achei um atrevimento àquilo e disse-o que eu não precisava das sugestões. Quando fiz as duas primeiras perguntas, vi que ele não as aprovou e que fiara chateado. Fiquei constrangido também e decidi não ser dirigido pelo entrevistado. Como o programa não era ao vivo, levantei, chamei um dos auxiliares do estúdio e disse: – Avise ao Muniz que eu não vou ais mais entrevistar esse bosta não.
E sai do estúdio, deixando-o sentado só no cenário, certamente pensando que eu iria voltar. Fui para o Bar do Deda, que ficava do outro lado da rua, onde hoje é um posto de gasolina. Ano depois, lá estava o meu quase entrevistado cantando com o Roberto Carlos num especial de fim de ano. Minha mulher, na época, me provocou: – E agora tu o entrevistaria? E eu, para não ficar por baixo, afirmei: – Talvez o Roberto Carlos se ele contasse a história de como perdeu uma das pernas. . Hoje acho que, apesar de tudo, Roberto Carlos é um ser admirável, ao passo que tal Zezé de Camargo continua o bostinha arrogante que sempre foi.
