**Dilson Ornelas, Rio de Janeiro**
O presidente Lula se agarra como pode ao sentimento nacionalista. Muda o slogan do governo para “Brasil Soberano”, e renasce politicamente, a ponto de voltar a sonhar com a reeleição, após Donald Trump elevar para 50% a taxa de importação sobre produtos brasileiros. Lula parece aquele centroavante veterano, desacreditado pela torcida, vaiado no estádio por mal tocar na bola e tropeçar nas próprias pernas em cada jogada. Mas, de repente, em um jogo tenso contra um adversário bem mais forte, quando tudo parece perdido, ele se aproveita de uma bola perdida, dribla o zagueiro e empurra para a rede. A bola entra devagar, quase chorando. E, com um gol inesperado, destrava um grito entalado e levanta a torcida.
Lula é um líder sul-americano típico, daqueles que frequentemente enfatizam a soberania nacional em discursos e pronunciamentos como resposta a pressões externas, históricas e atuais, especialmente de potências globais como os Estados Unidos. Essa atitude não é aleatória, mas enraizada em um contexto de longa data de intervenções estrangeiras na região, que vão desde o colonialismo europeu até as influências econômicas e políticas dos séculos XX e XXI.
**Lula, o nacionalista**
Até recentemente, o nacionalismo era associado à direita. Bolsonaro, por exemplo, foi acusado pelo próprio Lula de usar símbolos nacionais, como a Bandeira do Brasil e as camisas verde-amarelas da seleção brasileira, para criar uma ideia ilusória de patriotismo. O nacionalismo de esquerda de Lula, por outro lado, é mais um simbolismo retórico e discursivo.
**Confira o discurso**
O presidente Lula vem declarando, reafirmando e repetindo que a soberania do Brasil é inegociável (ou expressões equivalentes, como “intocável”, “não aceitamos imposição” ou “ninguém vai nos dizer o que fazer”) em pelo menos cinco ocasiões distintas. Desde o anúncio do tarifaço pelos EUA, em 9 de julho de 2025, tais manifestações apareceram também em reportagens do jornal O Aquiri.
Além de O Aquiri, no dia 11 de julho de 2025, durante entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo), Lula criticou a ingerência estrangeira no sistema de justiça brasileiro e afirmou que o governo não admite interferência na soberania de outro país, destacando que o Brasil “não aceita desaforo de ninguém”. O foco era a resposta inicial às tarifas e demandas americanas relacionadas a processos judiciais.
No dia 17 de julho de 2025, em entrevista à CNN Internacional, à jornalista Christiane Amanpour, Lula declarou que as tarifas são uma “chantagem inaceitável” e que o Brasil aceita negociações, mas não imposições. Ele afirmou que “nenhum país do mundo vai nos dizer o que temos que fazer” e que o Brasil não será “refém” dos EUA. Foi sua primeira declaração em rede americana após o anúncio.
Em pronunciamento público sobre as tarifas, em 24 de julho, Lula reforçou a defesa da soberania ao repetir que “nenhum país do mundo vai nos dizer o que temos que fazer”, criticando as decisões de Trump como um “truco” e prometendo retaliações, se necessário. O contexto envolvia medidas de reciprocidade comercial.
Em uma postagem nas redes sociais (X/Twitter), em 31 de julho de 2025, um dia após a entrada em vigor das tarifas e sanções americanas, Lula declarou que “sem soberania, o Brasil não existiria”, definindo-a como a autoridade do povo sobre seu destino e o direito de construir uma sociedade livre, em resposta direta ao tarifaço e às interferências.
Durante o lançamento da Medida Provisória “Brasil Soberano”, no Palácio do Planalto, em 13 de agosto, Lula afirmou que “a soberania é intocável” e que “ninguém deve dar palpite nas coisas que temos que fazer”, no contexto de medidas para apoiar exportadores afetados pelas tarifas americanas e rejeitar conflitos, mas defender a independência nacional.
Essa repetição não é mero ritual; é uma ferramenta diplomática para negociar em posição de força, evitando que o país seja visto como periférico ou subordinado. No entanto, há opiniões divergentes. Alguns acreditam que, ao invocar constantemente a soberania nacional ou da região, alegando que defende instituições nacionais contra uma “chantagem inaceitável”, Lula demonstra um certo complexo de inferioridade.
A ideia de que tais declarações revelam um “complexo de inferioridade” é uma interpretação comum, mas pode ser simplista, sendo contestada por análises históricas. Na verdade, a América Latina amargou visões de “inferioridade” racial, cultural ou econômica em discursos de europeus e norte-americanos dos séculos XIX e XX, que justificavam intervenções ao retratar a região como “atrasada” ou “decadente”.
Por um lado, a repetição pode denotar insegurança, especialmente quando comparada à confiança de potências globais que não precisam “gritar” sua soberania, já que possuem impressionante arsenal de armas nucleares. Por outro, essa ênfase é uma defesa legítima, não um complexo.
Posts recentes no X mostram divisões: alguns veem as declarações como “bravata populista” que mascara fragilidades econômicas, enquanto outros as celebram como proteção ao “povo brasileiro”.
Enfim, pode haver resquícios históricos de inferioridade, mas o grito que ecoa do Sul pretende ser de empoderamento, não de submissão.
Há, portanto, evidências de que o tarifaço e a pressão contra o Brasil podem ser aquela “bola perdida” que sobra para Lula, que vinha mal nas pesquisas e deixava a entender que não se candidataria à reeleição. Ao escolher endurecer o confronto, Lula fortalece sua posição interna. Após o tarifaço de Trump, o governo adotou um discurso nacionalista explicitamente para resgatar popularidade, mudando slogans e agendas para focar em “Brasil Soberano”, com vistas às eleições de 2026.
Analistas notam que, em meio a desafios como a fragmentação no Congresso e crises econômicas, Lula usa confrontos internacionais para unir a base esquerdista, projetar força e desviar de problemas domésticos – uma “política do não enfrentamento” internamente, mas assertiva externamente.
Posts no X reforçam essa percepção: apoiadores o veem como defensor inabalável (“soberania é inegociável”), enquanto opositores o acusam de ser “pífio, eleitoreiro” ou de arriscar isolamento econômico.
O jogo segue quente, o estádio está dividido. O artilheiro veterano tem fôlego pra ir até o fim? Tudo pode acontecer nesse confronto de gigantes, certamente uns torcem por sua saída, outros o querem no próximo jogo. E você?

