** Tião Maia, O Aquiri**
O paleontólogo Alceu Ranzi, que liderou uma equipe de pesquisadores numa expedição a qual partiu de Rio Branco, no Acre, no mês passado, em busca de desvendar os segredos e as origens dos geoglifos amazônicos — grandes figuras geométricas marcadas no solo, descobertas principalmente no estado do Acre, na década de 1970, reveladas pelo desmatamento e queima da vegetação, está de volta, por assim dizer, à civilização. Ele e a equipe estão de volta depois de visitar municípios do interior acreano e sul do Amazonas, em busca dos segredos dos geoglifos e trouxeram materiais orgânicos coletados em busca de datação por carbono-14, um método que mede a deterioração de isótopos para revelar a idade de vestígios arqueológicos, buscando desvendar os mistérios da civilização Aquiri, que floresceu na Amazônia entre 1000 a.C. e o início da era cristã.
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***A expedição contará com drones e outros equipamentos dotados da tecnologia LIDAR, de alta precisão/ Foto: Diego Gurgel***
Além de revisitar o passado da Amazônia, Alceu Ranzi se aventurou até a Aldeia Tenharim, em Humaitá (AM), às margens do rio Marmelos, na Transamazônica, onde participou de um festival sagrado entre os índios dos clãs Mutum e Gavião Real, cujas tradições, segundo o paleontólogo, ecoam a alma vibrante da floresta. O que foi coletado em relação aos geoglifo serão divulgados posteriormente.
Enquanto a Amazônia enfrenta a ameaça do desmatamento, a ciência corre contra o tempo para preservar um passado que pode redefinir o futuro, uma vez que os geoglifos não são apenas relíquias: são testemunhos de uma civilização que desafia preconceitos históricos e reforça a importância da Amazônia para o clima global.
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***Paleontólogo Alceu Ranzi. Foto: Divulgação***
“Proteger esse patrimônio é garantir que as vozes de um povo ancestral continuem a ecoar, inspirando gerações a valorizar a floresta e sua história milenar”, diz Ranzi, segundo o qual, com a proteção, todos têm a ganhar: “O município tem a ganhar, a população tem a ganhar, todo mundo tem a ganhar com as revelações das pesquisas. “Esperamos que, num futuro breve, nas cartilhas e nos livros que se usam em sala de aula, não apareçam apenas as pirâmides do Egito, a Mesopotâmia ou algo assim. Que tenhamos também as relíquias do nosso povo, deixadas aqui na Amazônia”, acrescentou, ao revelar os objetivos da expedição.
A expedição foi entre Rio Branco e Boca do Acre, no sul do Amazonas, onde, ao longo do tempo, foram mapeadas 523 estruturas em formatos de círculos, quadrados e outras figuras, que teriam sido feitas por civilizações antigas que habitavam a Amazônia. Esses monumentos continuam sendo estudados para que possam ser cada vez mais preservados.
Pesquisas atuais revelam sinais de que, na região, existiram sociedades complexas, com capacidade cognitiva comparável à da Grécia Antiga. Esta nova expedição visituçará por Assis Brasil, na fronteira do Acre com o Peru, e seguirá de Boca do Acre, no Amazonas, até a margem direita do rio Purus e a margem esquerda do rio Madeira, em Rondônia, além das margens do rio Abunã, na fronteira do Acre com Pando, na Bolívia.
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***Foto: Reprodução***
Da expedição participaram Martti Pärssinen, professor doutor da Universidade de Helsinki; do Dr. Rhuan, da Universidade Federal do Pará; e do Dr. Wenceslau Teixeira, da Embrapa Solos, do Rio de Janeiro, além de Ranzi — cientista internacionalmente reconhecido pela descoberta, divulgação e estudo dos geoglifos no Acre e na Amazônia.
Ranzi foi um dos primeiros a estudar essas estruturas arqueológicas e é autor do livro Geoglifos do Acre: Passado Profundo, que resume suas pesquisas, sempre destacando a importância cultural e arqueológica dessas formações. Ao longo do tempo, Ranzi tem contribuído significativamente para a conscientização sobre esse patrimônio histórico e cultural, promovendo sua divulgação. “Nossos ancestrais amazônicos dominavam a geometria ao mesmo tempo que os gregos. Assim como eles, também realizavam essas obras. São ao menos dois locais do mundo onde a geometria surgiu de forma independente: a Amazônia e a Grécia”, disse Alceu Ranzi.
O pesquisador não esconde o tamanho da audácia desta última expedição: desvendar os segredos dos geoglifos da Amazônia — essas monumentais estruturas geométricas escavadas no solo há milênios —, além de revelar quando e por quem foram construídas, trazendo à tona a história da civilização que habitou o Acre e o Amazonas em tempos tão remotos quanto os de gregos e romanos, antes de Jesus Cristo. “Em breve, teremos dados consistentes sobre quando esse povo viveu aqui”, garante Ranzi”, firou.
As evidências sugerem que, há cerca de 2 mil a 3 mil anos, uma civilização sofisticada, com amplo conhecimento geométrico, ergueu essas estruturas para rituais, celebrações ou até propósitos defensivos, desafiando a ideia de uma Amazônia “intocada”. “As pesquisas precisam ser cada vez mais aprofundadas, porque, quanto mais pesquisamos, mais perguntas surgem do que respostas”, afirma o pesquisador, destacando que, pela forma das estruturas — quadrados, círculos, retângulos —, quem as construiu dominava a geometria, realizava desenhos monumentais e habitou esta região por cerca de dois mil anos, desaparecendo por alguma razão.
“Tenho a informação”, acrescenta Ranzi, “de que o desaparecimento se deu ao mesmo tempo em que os maias desapareceram no México, na região florestada, onde foram encontradas pirâmides e palácios de pedras gigantescos. Também aqui esse povo construtor desapareceu, e nós tivemos muitos estudos, muito trabalho disciplinado”, revelou o pesquisador. “Não sabemos por que essa civilização desapareceu, mas cada geoglifo descoberto nos aproxima de desvendar esse mistério”, afirma Ranzi.
.A expedição contou com o uso de drones e outros equipamentos dotados da tecnologia LiDAR, de alta precisão, que mapeia o terreno sob a densa floresta. A equipe incluirá três fotógrafos especializados. Recentemente, os pesquisadores identificaram novos geoglifos, ampliando o mapa arqueológico da região. Essas descobertas reforçam a existência de uma rede de centros cerimoniais que conectava comunidades em vastas áreas da Amazônia, evidenciando uma organização social complexa.
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**As dimensões das demarcações são gigantescas (Foto: Valter Calheiros)**
A equipe trabalha com pressa, pois percebe que as estruturas estão cada vez mais ameaçadas, e alerta para a necessidade de esses monumentos integrarem definitivamente os achados da ciência arqueológica e a conservação ambiental.
Testemunhos de uma civilização que vivia em harmonia com a floresta, os geoglifos agora enfrentam as ameaças de tratores revolvendo a terra e queimadas calcinando as florestas.
“Proteger esses sítios é também preservar a memória de um povo que moldou a Amazônia, desafiando o mito de uma selva intocada e inspirando um futuro sustentável. A Amazônia não é mais uma selva virgem; ela foi moldada por povos que viviam em harmonia com a natureza”, destaca Ranzi, alertando para a destruição de um patrimônio arqueológico inestimável.
**Quem é Alceu Ranzi**
Natural do Rio Grande do Sul e radicado no Acre há mais de quatro décadas, Alceu Ranzi se tornou referência mundial no estudo dos geoglifos. Presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia e coordenador do projeto “Desvelando o Passado Profundo”, ele publicou obras como Geoglifos do Acre: Passado Profundo (2021) e artigos em revistas como Journal of Field Archaeology e Antiquity, muitos em parceria com pesquisadores como Martti Pärssinen e Denise Schaan.
Com mestrado em Geociências e doutorado pela Universidade da Flórida, Ranzi dedicou 25 anos à pesquisa, transformando o Acre em um epicentro de descobertas arqueológicas.

