Beth Passos
Quando falam mal da geração Z dizem: “não sabem ouvir um pito no trabalho; se são criticados, choram, desistem. Fazem exigências descabidas para os(as) chefes, faltam por motivos fúteis, não param no emprego etc.”
Quando rebatem a critica, usam argumentos como: “que bom que essa geração não se sujeita mais a ser explorada como as anteriores. Que bom que priorizam a saúde mental. Que bom que sabem os seus direitos e são capazes de reclamar. Que bom que não ficam onde não enxergam um propósito etc.”
Olha, legal demais que boa parte dessa geração mais jovem não se sujeite a trabalhos com alto grau de exploração e pressão psicológica.
Mas…
… quando um genZ abandona um trabalho que considera abusivo na primeira semana e, depois de um tempo, consegue um novo, que abandona porque “não está alinhado com seus valores”… quem paga o seu aluguel no final do mês?
De onde vem o dinheiro que paga a comida, as roupas, a conta de celular de uma pessoa com mais de 20 anos que tem essa autonomia toda para só trabalhar com o que considera digno e significativo?
Hum… talvez de mães, pais, avós que, em muitos casos, suportam (ou suportaram) empregos que não são lá tão interessantes e gratificantes assim.
Concordo que o ideal é que as pessoas possam escolher ficar ou sair de um emprego, sem serem obrigadas a aceitar tudo pela sobrevivência. Mas tem uma conta aí que não fecha.
Ou melhor, contas que fecham porque são pagas por outras pessoas.
Quantos jovens de 20 tantos anos (de diferentes classes sociais!), formados, desistem de um trabalho, quando pressionados, porque são sustentados por pessoas que aguentam (não sem consequência) todo tipo de pressão?
Não defendendo que trabalhadores têm que se arrebentar e aturar desaforo, que o melhor seria trabalhar feito os pobres em gerações anteriores trabalharam desde a infância.
A balança se desequilibrou total de uma geração para outra. Muitos pais da geração Z (nascidos entre 1990 e 2010) se estropiaram de trabalhar para que os filhos pudessem “ser feliz” – e nesse pacote impossível de ser suprido estava escolher a profissão e trabalhar com o que gosta.
E agora esses pais e mães de adultos estão adiando aposentadoria e pegando serviço extra para que seus filhos possam escolher não suportar trabalhos ruins – sejam os em que se comete assédio moral, sejam os que são apenas empregos cansativos e chatos.
(Último grifo: não estou responsabilizando trabalhadores jovens por serem mal remunerados e não poderem se sustentar sozinhos.)
O meu ponto é que muita gente jovem pode escolher sair de um emprego sem ter outro em vista porque tem mãe e pai que não podem deixar seus empregos ruins de jeito nenhum.
Por isso me soa estranho ouvir “que bom que a geração Z não se sujeita a ser explorada como as gerações anteriores”. Seria lindo, se em tantos casos não fosse gente das gerações anteriores a sustentar essa espécie de autonomia dos mais jovens.
