Beth Passos
Nelson Rodrigues é um filósofo que anda pelo meio e conhece a malandragem, o caso é a princípio um acidente, uma vez que nos misturamos ao meio passamos a fazer parte da essência que transforma e converte cada um em outro, pois em mim eu identifico todo mundo e no meu rosto reconhecemos o semelhante; casados enfim, somos apanhados pela amostragem que representa a parte significativa da sociedade, Nelson não escolhe um lado para opor a outro se o meio me liga todos a cada um e do ponto crítico chegamos a qualquer lugar, pegamos a coisa ascendendo com as relações que misturam para sugerir o entendimento. O
O meio é compreendido tão profundamente que o leitor viu o mundo abrir-se para o desenvolvimento, não somente nos livramos do determinismo como tiramos da determinação a liberdade que se cumpre com o destino; alcançamos a compreensão que liga o meio a tudo que se mistura à substância da vida, ampliamos o círculo de intimidade e ganhamos propriedade, o eu que se encaminha e o outro que vem ao encontro como possibilidade do desenvolvimento se movem no plano da experimentação. O teatro era encenado em palcos que de certa forma artificializam o entorno, as máscaras escondem o rosto e a imaginação fica presa aos vícios do costume que se repete no hábito; o meio se livrou dos preconceitos quando a imaginação se soltou das amarras para acompanhar o entendimento, o sentido crítico da ação deixou para trás o moralismo e tornou o homem livre, capaz de compreender o problema ético do mundo com o terceiro que universaliza o conhecimento.
O estudo de caso é um método sociológico, somos informados pelos fatos e procuramos saber o que se passa entre a gente, uma discussão ou um beijo levantam a suspeita de algo mais profundo que deve ser investigado; o fato de pautarmos a relação pelo interesse pode tornar o casal suscetível às intrigas palacianas, isolados nos afastamos da realidade e sucumbimos ao vazio que redunda em traição, superamos o drama para enfrentar o problema e com a vida que desafia a existência vivemos uma história de amor. O teatro rodriguiano são experiências que exploram as relações para espremer a laranja, ficamos sabendo quem colheu e quem ficou com o bagaço, pois a questão é ser ou não ser o que sonhamos; se trabalhamos para realizar o desejo voltamos com a memória e resolvemos as contradições, na medida em que desenvolvemos o sentido para fazer a história, ao invés de ficar com mentiras, experimentamos a verdade. Sabendo que ali, nas mentiras, vivem os vira-latas, e com a verdade encontramos o brasileiro mais fiel a si mesmo, somos nós que interpretamos tudo a favor e descobrimos a potência do Brasil no jeitinho inteligente de dar solução aos problemas, pois só o malandro resolve as contradições; aquela parcela da população que não tem condições de assumir a responsabilidade porque vive fugindo de si mesma não experimenta a verdade que nos diz respeito, essa turma de vira-latas vai fazer do jeitinho uma forma de corrupção e vai transformar o malandro em um ladrão, nesse caso resta incompreendido o que é anti-Nelson Rodrigues.
Dizemos que o drama é a vivência de uma situação que foi isolada como isolamos o caso para estudá-lo em um laboratório, como são trabalhadas as variáveis é a questão que nos inquieta porque se introduzimos algum elemento atuamos por fora para buscar o efeito, sendo assim aproveitamos ou descartamos as forças que foram geradas; o problema não é o que escapa ao controle, é a compreensão que definimos como um querer que se mistura no sangue para produzir energia, não atentamos o móvel da ação se nos ligamos ao direito que constitui a personalidade para estruturar a relação, não estou falando das leis nem dos valores se criamos o afeto para viver a vida como ela é: diga-se imediatamente para que não tenhamos dúvida alguma do que se trata quando falamos da dramaturgia propriamente brasileira, no meio do mundo superamos o drama e ascendemos a uma dimensão epistemologicamente factual da realidade, aí o que existe se dá a perceber por sua beleza
