
O cartunista Francisco de Assis Silva Braga, cearense que viveu no Acre por mais de três décadas e que nos últimos anos havia se reunido à família, em Cassimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, morreu na quinta-feira (24/9), num hospital público, do Rio, vítima de câncer, aos 62 anos. O culto fúnebre em memória do artista será hoje, por volta das 12h0min (horário do Rio), em Cassimiro de Abreu, em cujo cemitério municipal ocorrerá o sepultamento, também hoje à tarde.
Chargista, poeta, dramaturgo, jornalista e humorista, Francisco Braga, conhecido por Braguete ou Braguinha, o “Rei da Piada Pronta”, surgiu no Acre em 1992, como desenhista e diagramador do antigo jornal impresso “O Rio Branco”, quando o proprietário, o então deputado e empresário Narciso Mendes de Assis, resolveu importar do Nordeste brasileiro vários profissionais de comunicação para os quadros da empresa que estava implantando no Acre, o complexo de rádio e TV Rio Branco, então transmissora o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).
Inicialmente lotado no setor comercial, ele evoluiu para chargista e diagramador do jornal “O Rio Branco”, de onde sairia em 1997 para ajudar o jornalista Antônio Stelio de Castro na fundação do jornal (também impresso) Página 20. Também teve passagem por outras redações, mas foi no Página 20 onde publicou suas melhores charges e onde ganhou os maiores e melhores prêmios por seus traços inconfundíveis. Uma delas, a mais marcante, deu-se quando o ativista Eudo Lustosa, um notório tatibitati, de fala infantilizada caracterizada pela troca de consoantes, uso excessivo de diminutivos e pronúncia simplificada, além de fanho, foi preso no aeroporto de Brasília, com um carregamento de cocaína. Braga repercurtiu a notícia com um desenho do preso e, nos balões, ele dizia: “agoga fogueu…”. A charge saiu sem legenda e só quem conhecia o humor (e a maldade) do chargista conseguiu traduzir o que o inocente balãozinho dizia. “Agora fodeu”, era tradução.
Tião Maia no traça do Velho Braga
O homem que hoje entristece seus amigos e familiares pela notícia de sua partida para o Imponderável foi um ser viveu rindo de si e de todos, sempre brincando, fazendo molecagem inclusive de coisas sérias, como a própria doença. Diagnosticado com câncer no intestino em outubro de 2025, sem se abalar, ele escreveu um artigo falando da vida e seu anúncio de finitudes. Sob um sugestivo título, ele escreveu: “COMPARTIR LAMENTO: Ao descobrir que tenho câncer, algo que, de certa forma já esperava, eu senti um alívio. Mas, obviamente não fiquei satisfeito. É foda saber que seu corpo está se dissolvendo por dentro. Um alívio sim por saber que, de agora em diante eu tenho um pouco de tempo, em minhas mãos. Agora tenho poder. Estou só. Só tenho a mim. Não há mais nada além desta oportunidade de ainda escrever sobre este vislumbre do fim”.
E acrescentou: “Tenho duas peças de teatro para terminar e mais uma para começar a escrever. Uma poesia espetacular para ser musicada. Agora estou sentindo o tempo nos meus dedos, nas minhas ventas. Ao ver o diagnóstico, ao ouvir as palavras da verdade inexorável eu nem palpitei, nem pensei em me aquietar. Não penso em morrer, nem em permanecer vivo. Ainda não sinto medo… Apenas sinto”.
Braga era isso: um artista e os verdadeiros artistas, como seres sobre-humanos, não têm medo. Nem mesmo da morte. Ou se cagam de medo, ele diria, entre gargalhadas, sem perder a piada, tirando sarro dos amigos, inclusive do redator, a quem tinha como amigo mas não perdia a oportunidade de uma piada ou de um desenho, como o caso de uma reportagem em que escrevi o tamanho de recém-nascido, que veio ao mundo com mais de quatro quilos. Ao ler a matéria, ele sapecou a ilustração:
– Tião, esse menino já nasceu do tamanho do Suede.
Suede, no caso, é o jornalista e advogado Suede Chaves, do alto de seus 1m50, que compra sapatos nas seções infantis das lojas.
Enfim, com a morte do velho Braga, a vida fica cada vez mais sem graça.
