
Num 20 de janeiro de ano de 1960, uma quinta-feira, nascia em Rio Branco, então capital do Território do Acre, Sebastião Roberto Vieira Mourão, que seria um artista, cantor e compositor o qual, sob o nome de “Tião Natureza”, de existência, numa breve vida de apenas 31 anos, parece ter sido tecida ou escrita por um roteirista caprichoso que não pouparia àquele roteiro de múltiplas tragédias.
No dia em que o artista completaria 66 anos de idade – embora seu registro de nascimento seja datado do dia 24, mas ele nasceu quatro dias antes e por isso seu nome foi dado em homenagem ao santo guerreiro que a Igreja Católica homenageia a cada 20 de janeiro – o que seus amigos, familiares, fãs e admiradores não podem esquecer é a forma como se deu o fim daquela breve vida: com um faca cravada em seu peito, bem sobre o coração, no dia 31 de agosto de 1991, a poucos metros da casa em que ele residia, na rua do Aviário, no bairro do mesmo nome.
Filho único da acreana Mafalda Lopes, integrante de uma família tradicional acreana, cujos irmãos Miguel, José e Mirarele Lopes Borges atingiram posições de destaque na sociedade local. Em 1992, por exemplo, Miracelee Lopes, como desembargadora e presidente do Tribunal de Justiça, assumiu governo do Estado interinamente com a ausência do então governador Edmundo Pinto, que faria a última viagem de sua vida, do vice-governador Romildo Magalhães, que viajaria para Manaus (AM) a tratamento de saúde, e do presidente da Assembleia Legislativa, Ilson Ribeiro, que fazia parte da comitiva oficial do governador em sua última vigem a São Paulo.
Miguel e Mafalda Lopes exerciam atividades modestas mas não menos importantes na sociedade. À essa altura, em maio de 1992, “Tião Natureza”, que cresceu e viveu seus 31 anos em companhia da mãe Mafalda e não teve a companhia do pai, já estava sepultado desde o último dia de agosto do ano anterior.
Em 1964, com a eclosão da ditadura militar, que encontrou o Acre com apenas dois anos de emancipação como Estado da Federação e o futuro artista “Tião Natureza” com apenas quatro aninhos, não foi subtraída do país apenas a democracia e a liberdade dos brasileiros. De “Tião Natureza” também lhe foi tirada a oportunidade definitiva da convivência paterna. Seu pai, Raimundo Alencar Moreira Borborema, foi um dos muitos brasileiros a caírem em clandestinidade com o endurecimento do regime militar brasileiro. Desapareceu como se a terra o tivesse engolido.
De Raimundo a família só teria notícias por volta de 1966, quando passou um homem por Rio Branco a caminho da Bolívia com um cartão de Raimundo, cuja caligrafia reconhecida informava a família que estava bem e vivendo em Cuba, apoiando o regime de Fidel Castro e que sonhava com a expansão da revolução para todo o continente latino-americano. Aquele cartão dizia ainda que o irmão mais velho de Raimundo, conhecido como João Borborema, um mecânico que também era político e fazia oposição ao regime militar, deveria ajudar àquele homem atravessar a planície da selva amazônica rumo aos Andes, na Bolívia.
Satisfeito em obter informações sobre o irmão desaparecido, João Borborema, a borde de um jipe com o qual costumava se movimentar nas ruas acanhadas de Rio Branco, levou o passageiro até às margens do rio Abunã, onde hoje é o município de Plácido de Castro. Aquele homem, fidalgo e de bons modos, seria ninguém era ninguém menos que o guerrilheiro Ernesto Che Guevara, segundo iria relatar depois o acreano João Borborema, ao saber que seu passageiro havia sido executado na Bolívia, em 8 de outubro de 1967.
Aqueles tiros dados por homens das Central de Inteligência do governo dos Estados Unidos, a temida CIA, num guerrilheiro encurralado e abandonado na selva da pequena aldeia de La Higuera, na região de Vallegrande, nos Andes da Bolívia, iriam ferir a única possibilidade de a família Borborema voltar a ter notícias de Raimundo. Matariam também a única possibilidade de Tião Natureza vir a ter, algum dia, contato com seu pai.
O menino Sebastião Mourão, apesar da ausência paterna, viveu e cresceu em Rio Branco quando a mais nova Capital estadual do país era ainda a cidadezinha de terra batida, em cujas ruas o futuro Tião Natureza, como todo menino de sua época, brincava. Dona Mafalda, como toda mãe dedicada, cumpriu bem o papel de mãe solteira.
Sebastião Mourão estudou, cresceu, virou funcionário público do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), chegou a presidir a Associação dos Servidores do Poder Judiciário, mas, com o apoio do braço de um violão, o servidor público, num festival de música local, foi superado pelo artista. Voz diferenciada, lembrando um pouco o tom do cearense Fagner, a quem admirava sem esconder de ninguém e buscava sempre que possível alcançar suas notas, não só cantava. Era também um poeta. E como tal escreveu músicas evocando o meio ambiente, numa época em que praticamente ninguém falava disso e suas preocupações ambientais, a partir de uma de suas músicas, lhe deram o nome artístico.
Mas, talvez como capricho do roteirista de sua vida, escreveu uma música com o sugestivo nome de “A Faca”, composta dois meses antes de sua morte à facada, cujos versos são os seguintes; “Uma vela não acesa/Um gosto de sangue no ar…/Uma faca sobre a mesa/Eu vou para não voltar/Não esqueça do meu rosto/Um espelho a se quebrar…”.
Sim, ele se foi. E por uma facada cravada no peito no dia 31 de agosto de 1991, após uma noite em que cantava, alegre e feliz, num barzinho perto de casa, o Rios Bar. Do outro lado da rua do Aviário, havia outro bar, onde ele também entrou para dar uma canja. Na saída, um homem o espreitava. Era o assassino, um pobre diabo que cometeu o crime de forma fria, foi condenado, cumpriu sua pena e hoje é uma espécie de morto vivo a tomar conta de uma banca de doces no Calçadão da Rua Benjamim Constant, em Rio Branco.

